Carnaval de Salvador e As Muquiranas: Quando o assédio vem fantasiado de mulher

meu corpo não é folia
Campanha contra o assédio no carnaval de Recife/Imagem:IG

Henrique Oliveira e Iris Brito Lopes*

Carnaval é a época do “pode tudo”, dizem. A folia é marcada por alegorias, diversidade e uso de fantasias nas ruas. No caso dos homens, é comum o uso de “fantasias femininas”, ou seja, roupas e adereços geralmente usados por mulheres no dia a dia.

Em alguns casos, essa postura é entendida como uma liberação de um lado feminino presente nos homens que é reprimido no cotidiano. Noutros, a justificativa é de que se trata de uma homenagem ao gênero feminino. Mas como se sentem as mulheres e a população LGBT nas ruas durante o Carnaval?

Especialmente em 2018, os dias de folia na avenida renderam inúmeras denúncias de assédio feitas por mulheres e LGBTs. No Carnaval de Salvador, a maioria dos relatos gira em torno das agressões de foliões do bloco “As Muquiranas”, formado apenas por homens com a tradição de utilizar figurino feminino que neste ano faz referência à Carmen Miranda.

A campanha #UmCarnavalSemMuquiranas surgida no Facebook ganhou força quando a produtora de audiovisual Maria Carolina e a fotógrafa Paula Froes relataram que na terça-feira de carnaval (13), no circuito Campo Grande, foram agredidas verbalmente e molhadas a jatos de pistola de água enquanto tentavam passar pelo bloco As Muquiranas.

Em entrevista para o jornal G1 Maria Carolina disse que a reação dela aconteceu pelo fato de que isso acontece ao longo dos anos, porque elas não eram as primeiras vítimas do assédio no carnaval pelos membros do bloco e por isso exigiam respeito. Maria Carolina e Paula Froes ainda foram cercadas pelos homens que jogaram água na câmera fotográfica de Paula, além de serem insultadas por palavras como ‘mulher macho’. Um vendedor ambulante tentou ajudá-las, mas também foi agredido pelos participantes do bloco. As vítimas se dirigiram a um posto policial na região do Politeama e foram orientadas a registrar uma denúncia formal.

Algumas mulheres que participaram da campanha na rede social depois também denunciaram que sofreram ameaças por meio de mensagens anônimas de supostos integrantes do bloco que se disseram policiais. Nas mensagens privadas foram ordenadas que a campanha contra o assédio no carnaval fosse encerrada. Uma mulher que não quis relevar sua identidade disse que chegou a receber 10 mensagens ofensivas.

O bloco As Muquiranas resolveu comentar por meio da sua assessoria as denúncias de assédio acontecidas durante o carnaval informando que a pistola com água não faz parte do kit fantasia e que orienta os associados a não usarem o brinquedo. A assessoria ainda afirmou que para as pessoas saírem no bloco é necessária a assinatura de um termo se responsabilizando individualmente pelos atos praticados. E, por fim, afirmou também que não apoia e nunca vai aceitar qualquer tipo de agressão.

A Revista Rever conversou com algumas mulheres que sofreram assédio do bloco As Muquiranas no carnaval desse ano, como a estudante Lara Boker, que acredita que para além dos processos e termos de ajuste que o bloco As Muquiranas venha a ratificar, o ideal é uma mudança cultural para se chegar num carnaval livre de assédio. Mas enquanto isso não acontece, as denúncias devem ser feitas.

 

Revista Rever: Você teve alguma experiência com o bloco As Muquiranas no Carnaval de Salvador 2018?

Lara: Sim, uma bem bizarra, inclusive. Foi na segunda feira de carnaval. Era meu aniversário e eu tinha saído com um grupo de 6 meninas lá de casa. Entre elas minha mãe e minha prima. A gente estava tentando chegar no palco da Attooxxa que ia ser na Castro Alves, e achando que era a melhor opção a gente foi pela Carlos Gomes. “Desde o Campo Grande já tinham vários Muquiranas atirando água na gente, mas estava tudo bem cheio e até então eles não eram a maioria. Então estávamos incomodadas, mas não reagindo. Quando chegamos no final da Carlos Gomes, estava passando o bloco inteiro. E ali não tem mais aquelas ruas transversais que dariam pra gente fugir. Então éramos 6 no meio do bloco do Muquiranas. Foi aí que eles começaram a ficar cada vez mais agressivos e invasivos. Passando a mão na bunda na boceta, dando tapa puxando cabelo e jogando água. Nesse momento já estávamos muito chateadas e molhadas, e quanto mais molhadas a gente ficava mais era motivo de eles mexerem com a gente. A gente gritava, pedia pra parar. E nada acontecia. Eu comecei a ficar mais irritada, ia na frente do meu grupo meio empurrando os caras que vinham pra cima da gente. Aí um deu um tapa muito forte na minha bunda e atirou água no meu olho. Eu peguei a arma dele joguei no chão e quebrei, fiquei alguns segundos encarando ele pra ver se ele ia fazer alguma coisa, mas foi só quando eu virei de costas que ele veio pra me bater. Aí minha mãe segurou ele. E ele começou a bater nela. Eu voltei pra ajudar, nisso, eu não sei exatamente como aconteceu pq a essa altura meu óculos já estava completamente embaçado, mas de alguma forma eu fiquei sozinha no meio de uma rodinha de homem me batendo (eu estava batendo de volta, claro) eram mais de seis contra mim. Mas eu não parei de bater e apanhar até que uma das minhas amigas me tirou de lá. Nessa hora Pisirico tava cantando “mulheres no comando mulheres no poder” Eu é essa amiga nós perdemos do resto do grupo, mas quando a gente se achou tava todo mundo chorando muito. E com medo do que podia ter acontecido cmg. Bom, eu fiquei uma semana com o braço engessado, to cheia de roxos dos tapas e chutes, meu ouvido inflamou por causa da água e meus braços estão cheios de queimaduras de bituca de cigarro.

 

A Revista Rever também conversou com a estudante de Letras Luiza Brandão, que abordou como as As Muquiranas são um bloco de assediadores, mas que de forma contraditória se fantasia de mulher. Se vestem de mulher, no entanto, não as respeitam.

 

Revista Rever: Você acha que o bloco “As Muquiranas” é especialmente assediador? Existem denúncias contra Os filhos de Gandhi, o Ilê… Mas contra as Muquiranas é mais forte. Por quê?

 

Luiza Brandão: Eu acho que todos os espaços compostos majoritariamente por homens representam algum perigo para as mulheres, que é o caso dos que você cita nas perguntas. Todos eles, de alguma maneira possuem a cultura do assédio e do estupro enraizadas, afinal homens são socializados de um modo que são direcionados a ver corpos femininos como propriedades, e corpos femininos circulando no carnaval sem a presença de um homem como automaticamente disponíveis. Apesar dos outros blocos também serem marcados por casos de assédio, nos muquiranas isso se torna mais evidente por alguns traços do grupo que o compõe e da própria organização do bloco, pra mim, dois traços em específico salientam os assédios cometidos por eles. O primeiro são as fantasias: homens “fantasiados” de mulher, usando símbolos socialmente concebidos como femininos (e muitas vezes ferramentas de subordinação e objetificação das mulheres) torna o poder deles sobre os nossos corpos muito mais salientados, eles usam a performatividade feminina, gritos (irônicos) de empoderamento feminino ao mesmo tempo que invadem o nosso espaço pessoal de uma maneira extremamente agressiva. O segundo são as pistolas de água, que acabam por ser uma ferramenta de poder simbólico e que permite o toque ao nosso corpo à distância. Não entendo assédio e estupro como uma relação de interesse sexual, mas sim de demonstração de poder. Veja bem, existem vários casos de estupro em que a mulher é estuprada com objetos. A partir do momento em que um cara do muquiranas molha as mulheres e não precisa necessariamente estar próximo a ela para constrangê-la de uma maneira que não seja verbal, o poder de ação deles ali, o número de mulheres assediadas por esse armamento simbólico vai ser muito maior. Pra mim, esses são os dois principais aspectos que fazem os muquiranas se destacarem como um grupo particularmente assediador. E eu, de fato, só escutei relatos de agressões físicas e assédios mais ostensivos por parte do muquiranas, mas não tenho dúvidas de que muitos casos silenciados podem ter partido de homens que estavam ocupando outros espaços.

 

A Revista Rever também recebeu por email denúncias de assédio referente ao bloco As Muquiranas no carnaval de Salvador. Segue abaixo o relato da estudante Heloísa Lima, que narra um assédio acontecido no ano passado, o que demonstra o histórico dos abusos cometidos por membros desse bloco.

 Relato de agressão relativo ao bloco As Muquiranas

“Carnaval do ano passado, 2017, não foi muito diferente do que ocorreu neste ano no quesito abuso, assédio e agressão por parte de homens do bloco As Muquiranas. O relato que se segue não se trata de um caso isolado sobre uma agressão de um folião, antes tem haver com recorrentes praticas machistas e misóginas praticadas há anos no referido bloco ‘mais irreverente do Carnaval de Salvador’.

Bom, em mais um dia de festa fui para o tradicional circuito Osmar no Campo Grande, acompanhada por uma pessoa, estávamos indo em direção ao Pelourinho. Passando pelo contrafluxo  para alcançar o nosso destino nos deparamos com o bloco As Muquiranas fazendo a volta na praça Castro Alves, naquele instante só pensava em voltar para justamente não acompanhar o cortejo dele, já com receio do que estava por vir. No entanto,  ainda faltava alguns minutos para o trio dar a volta e fui convencida a inclusive passar correndo para nem dar tempo de ficar frente a  frente com o bloco, porém,  foi nessa tentativa de “fugir” do já esperado assédio que um grupo de homens vestidos com a roupa do Bloco começou a nos molhar com jatos de água no rosto. Até aí ainda estava menos irritada, quando um deles me agrediu fisicamente com um tapa na bunda com muita força que cambaleei pra frente. Quando olhei pra trás o agressor confessou o que tinha feito alegando ser uma “brincadeira”, só que nesse momento seus colegas ao perceberem a situação se aproximaram e nos cercaram todos eles dizendo para a pessoa e eu levarmos na ‘brincadeira’ num tom de ameaça com objetivo de nos afrontar. Ao perceber que naquele momento a situação poderia descambar para outras agressões, visto que mais ninguém ali nos apoiou, resolvemos sair de perto deles e procurar ajuda. Logo em frente um grupo de policiais militares vinham na nossa direção e não hesitei em relatar o que ocorreu. O policial acatou a informação, pediu para apontar o acusado e disse que eu precisava registrar o ocorrido, por medo de retaliação, o apontei e sai do local sem saber o que os policiais haviam feito. Não fiz a denúncia formal e hoje revendo casos parecidos sendo denunciados, percebi o quanto eu precisava ter feito a denúncia. É preciso que cada vez mais todo tipo de abuso dentro e fora do contexto do Carnaval seja combatido. Naquele momento só pensava em sair do local e ir pra casa, o dia que seria de festa me causou uma dor difícil de esquecer.”

Iris Brito Lopes é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe e mídiativista da Revista Rever

Henrique Oliveira é mestrando em História Social na UFBA e colaborador da Revista Rever/Salvador

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