1ª Lama de 2018: O Original Marginal Rap de Salvador

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Lama 7ª edição/ Fotografia: Tati Freitas

por Henrique Oliveira*

Na noite da sexta feira passada (09) aconteceu o evento que é conhecido como o mais sujo da cidade, o Lama – original marginal Rap, no Anglo Saxon Pub, Largo do Pelourinho, um lugar histórico para a cultura negra na Bahia e no Brasil. Essa foi a 7ª edição em 3 anos que a festa já ocorre, e a Revista Rever foi fazer uma cobertura exclusiva desse evento, que sem sombra de dúvidas já entrou para o calendário cultural de Salvador. Só para termos uma noção, a lista de nomes se encerrou as 13h da sexta feira e tinham mais de 700 pessoas. Nessa 7ª edição o evento homenageou o pixador  Jaime Ferreira, conhecido como Mito, que era chamado até de Presidente da pixação baiana entre o grupo, que veio a falecer após o agravamento do seu quadro de saúde.

E para falarmos sobre o evento, a Rever conversou com os seus organizadores, que estão desde 2016 movimentando a cena cultural marginal da cidade, como eles bem gostam de denominar. Segundo os organizadores, o Lama surgiu após ser constatado que estava faltando um evento voltado para os pixadores da cidade, pois em outros lugares essa confraternização já existia:O Lama surge no inicío de 2016, de uma ideia informal, por uma necessidade que tínhamos para fazer uma festa voltada para os pixadores. A gente observava que em outras cidades como Belo Horizonte, São Paulo, Recife, isso já acontecia e aqui nós éramos carentes disso. Até então, nós frequentávamos shows de Rap, que passaram a se tornar mais caros entre 2015 – 2016 após alguns produtores ganharem os editais, ocasionando o encarecimento dos ingressos e a maioria das pessoas não podiam pagar. O Lama surgiu como essa contraproposta, de ser um encontro entre pixadores e também uma festa, só que foi ganhando proporções, passando não ser só uma festa, mas algo que passou a unir outras atividades dentro desse campo.”

O Lama também surge com a intenção de fazer uma disputa política pelo direito a cidade, pela reocupação dos espaços, como, por exemplo, um resgate do seu Centro Histórico: “A gente percebeu que existia uma dinâmica de apropriação do Centro Histórico e de outros espaços que existiam, aqui antes tinha se 12 praças de Reggae, havia também o Quilombo Cecília e a Rocinha. Quando nós fizemos a primeira edição, ela aconteceu no  Buk Porão Bar, que fica embaixo onde era o Quilombo Cecília, isso já foi bastante significativo e simbólico. E para além da pixação, nós fazemos interação com outros movimentos como o Punk, o Reggae e o Hip Hop, que se encontram marginalizados, até porque a pixação faz essa comunicação mais ampla. Na 6ª edição mesmo, que aconteceu no Espaço e Centro Cultural Fusion, uma pessoa chegou para gente e disse que tinha ido naquele mesmo lugar há uns 10 anos atrás, no show do Afrogueto (O Afrogueto chegou a ganhar o V prêmio Hutuz como melhor grupo de Rap do Norte/Nordeste). O que a gente faz na verdade é um resgate, só estamos dando uma cara nova, parece ser  algo novo, mas não é.”

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Lama 7ª edição/ Fotografia: Tati Freitas

E um dos assuntos que não poderiam ficar de fora, era por que o nome do evento se chamar Lama, como é ser produtor cultural na dita “cena alternativa” de Salvador sendo pixadores – não podemos esquecer que nos últimos anos os governos aumentaram a repressão contra os pixadores. Aqui em Salvador no ano passado a Câmara de Vereadores aprovou uma multa de 3 mil reais para quem for apreendido pixando, em Belo Horizonte os pixadores estão sendo monitorados por tornozeleiras eletrônicas,  no ano passado também 5 PM’s foram absolvidos após serem acusados pelo Ministério Público de São Paulo de executarem dois pixadores, rendidos, deitados no chão e cometerem fraude processual colocando armas nas mãos das vítimas em 2014 – e também sobre o engajamento social que existe com a festa, como, por exemplo, destinar parte do caixa para pessoas necessitadas de ajuda financeira: “O nome Lama vêm de uma gíria dos pixadores, há vamos fazer uma lama, vamos nos divertir, vem nesse sentido, é um nome que soa muito bem, uma gíria do nosso dia a dia, que dar uma ideia também de substrato, tem uma relação com nossos ideias de Hip Hop e Anarquista. A gente não pensou no conceito e criou a marca, o conceito foi se formando com o tempo e também caminhou com a tradição que foi passada pelos pixadores.

A produção do evento é ao mesmo tempo o nosso maior trunfo e dilema, porque a nossa proposta é que a festa seja colaborativa e cooperativa, que possa unir os grupos de Rap, DJ’s e demais envolvidos, para a possibilidade de fazermos algo que não vise apenas o lado financeiro, mas que possa se valorizar com essa movimentação. O nosso evento é de pixadores, não só para os pixadores, abrange outro público, a gente traz conteúdos como audiovisual, poesia, amigos e pessoas próximas que produzem zine, vendem camisetas, pulseiras, nós queremos unir com outros elementos.

Nós somos pixadores, e somos muito mal vistos em vários espaços, temos problemas diversos, então é difícil produzir evento por causa disso. O processo de alugar som, contatar mc’s e grupo de Rap é o mais fácil. Agora, consegui espaços para realização é o mais complicado, principalmente no centro, porque nós preferimos o centro da cidade por vários motivos, tanto pela questão da ancestralidade, de acessibilidade como ida e vinda para casa. Então é difícil achar a gente achar espaços e pessoas que queiram abraçar a nossa proposta. Estamos aqui hoje, não sabemos como vai ser, mas esperamos voltar para cá em outras oportunidades. Além do que, temos o desafio financeiro, que é um parodoxo, que é de fazermos algo de baixo custo, muito acessível, mas ao mesmo tempo precisamos ganhar esse dinheiro para ter uma certa autonomia que é fundamental. E como já dissemos, vai muito além de uma festa, porque o que acontece é o seguinte, os principais atores da arte da pixação, que não é uma arte qualquer, é exercida em meio a um risco, por isso acaba se criando uma rede de solidariedade, uma consequência das nossas práticas. O que não é apenas uma movimentação política, é um laço de amizade, de vida, muito mais profundo que qualquer outro tipo de organização”

A 7ª edição do Lama contou com uma grade de programação que uniu novos mc’s da cena Rap de Salvador como As Visioonárias e Felzem MC, com nomes que já tem mais tempo na caminhada entre eles Galf, Fúria Consciente e Vandal. A festa ainda foi composta pelas participações do Coletivo Roupa Suja e Mobb. A Revista Rever também trocou uma ideia com esses artistas, confira abaixo o bate papo sobre projetos, carreira e a visão política que esses mc’s tem sobre o Hip Hop.

O primeiro a ser entrevistado foi o mc que abriu o evento, Felzem MC, que começou no Rap fazendo participação com o grupo Nois por Nois, ambos vindos da região da Cidade Baixa de Salvador. Felzem MC que é cadeirante, gravou uma das suas primeiras faixas juntamente com Jhomp um dos vocalistas do grupo Nois por Nois e Torre do grupo Contenção 33, ouça aqui a música “Não está certo”. Esse ano ele lançou a sua música “Me diz”, que é uma gravação totalmente solo ouça aqui. Se você quiser saber mais sobre Felzem MC, leia a matéria feita pela Mylena Bressy para o Oganpazan “De Fabrício a Felzem MC – Subindo da plateia para o palco”.

Na conversa falamos sobre o seu trabalho solo que está em processo de produção e a militância pelos direitos da população deficiente, como ele mesmo fala, por meio do Rap: “Eu estou trabalhando no meu EP que iria se chamar ‘Não estar certo’, mas eu acabei trocando de nome e vai se chamar ‘Qual é o motivo do seu manifesto’, que estar sendo gravado no estúdio de Diego 157, já 80% pronto, mas não tem ainda data de lançamento. E eu prefiro não apenas falar dos direitos da população cadeirante, mas dos deficientes, porque o cego não enxerga, o surdo não ouve, o mudo não fala, o paraplégico não anda, então por isso que eu os chamo de irmãos de deficiências, todos nós temos limitações. Por isso eu digo também nas músicas ‘Deficiente também é gente, consciência humana se encontra ausente’. Eu estou há 6 meses fazendo poesia nos ônibus e as pessoas me olham atravessado, me chamam de ‘atrasalado’, achando que eu vou pedir ajuda. Mas eu tenho minha trajetória e sei caminhar sobre essa cadeira de rodas, que não é fácil. Eu tento botar não só meu sofrimento, mas também daqueles que estão a minha volta, da violência que aconteceu comigo, não a toa que eu chamo de protesto severo, aqui não vai ter rima sem nexo, vão ser direcionadas contra a Polícia, contra o prefeito ACM Neto, o governador Rui Costa, Temer e quem estiver prejudicando a gente.”

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Lama 5ª edição

Um dos participantes foi o mc Galf, que já foi membro de um dos maiores coletivos de Rap de Salvador, a Ugangue, com a Fraternidade Maus Elementos, gravou faixas solos e com participações de outros mc’s. Esse ano Galf lançou o EP “Vapor” juntamente com Gil Daltro – ouça aqui – com quem já trabalhou na Fraternidade Maus Elementos, além disso, Galf está em processo de produção do seu disco solo. E o nosso papo foi bem nessa linha:Eu já venho nessa caminhada, participei desses dois coletivos, e sempre tive essa visão em prol da união dos mc’s independente de ego, de inveja, nunca tive visão de superioridade. Sempre achei que os mc’s que gravaram comigo estavam contribuindo com a música. Esse projeto que gravei com Gil Daltro, nós denominamos de Vapor e o que é o vapor? É algo que denomina força, ‘como a todo vapor’. E vapor é o menino que tá na pista pegando a visão para o tráfico, é o cara que está na correria querendo conquistar o sonho dele. O Rap não pode perder o sentido, e o resgate das denúncias sobre chacinas, discriminação, da política, e da política ausente de educação e saúde. Eu creio que isso venha a fortalecer os jovens que hoje estão no movimento, que tem a gente como um espelho. O Rap é muito além de todo esse discurso que está sendo proferido hoje em dia, de roupa de marca, de moda, de hype, foda se essa tendência de moda. Não que ela não deva existir, mas que ela seja cautelosa e respeite a causa verdadeira do Rap. E eu estou gravando um EP que já estar praticamente pronto, faltando apenas mixagem e masterização. Esse trabalho é tipo uma dívida que eu tinha comigo,  não faço música almejando dinheiro, mesmo que ganhe, a intenção é passar a mensagem”

E apenas com 6 meses de formação As Visioonárias, o grupo formado pela dupla feminina Udi Santos e Brena Élem já vem ganhando espaços no Rap de Salvador, no carnaval elas se apresentaram no palco Multicultural – assista aqui os melhores momentos –  no começo desse mês lançaram o seu primeiro clipe da música que carrega o nome homônimo de Visionárias, veja aqui. E leiam abaixo porque elas chegaram para causar inflamação, num diálogo sobre esse momento que estão vivendo: “No palco Multicultural nós fomos convidados pelo DJ Tau para fazermos a participação e foi muito foda ver a galera batendo cabeça e prestando atenção nas nossas letras. E no início do mês lançamos o clipe que foi muito bem recebido, conseguimos ter 1000 visualizações em 24 horas, foi bem importante porque somos independentes, é nós por nós. As Visioonárias é formada por Udi, Elém e nosso produtor Gamp que nos acompanha em todo momento. E chegar aqui no Lama e ver a galera cantando as nosso som é sem palavra, porque antes disso nós não tínhamos nada, não temos som lançados na internet, As Visioonárias é uma formação de duas mulheres pretas que se encontraram para um projeto que até agora não saiu completamente. Porque a cena para mulher é difícil, e isso não vitimismo, não é problematização e nem é clichê, até a data de hoje é tudo muito difícil, são as falsas parcerias. A gente vem arrombando portas, Visioonárias não pediu licença e também não foi mal educada, mas literalmente nós arrombamos portas de verdade, é o que ninguém quer que aconteça, para continuar com aquele discurso patético e ridículo que não tem mulheres fazendo Rap, tem sim, o que falta é espaço, falta oportunidade e falta incentivo. Porque quando as minas acham eles quebram as pernas. Nós chegamos preparadas para isso, a gente se estruturou e se planejou para estar aqui, não é a toa que em 6 meses a gente está alcançando espaços, não é sorte é trabalho mesmo. E com apenas um som lançado a gente tá fazendo agenda de mês, tocando em dias seguidos.”

O Fúria Consciente que já tem 20 anos na estrada do Hip Hop, surgiu em 1998 quando seus integrantes se conheceram no colégio estadual Lomanto Júnior no bairro de Itapuã e resolveram apresentar um trabalho sobre os 450 anos da cidade de Salvador em forma de Rap. Em 2000 lançaram seu primeiro trabalho a mixtape Manifestividade e em 2013 o CD Na busca da ampla visão, escute aqui. Nós conversamos com um dos vocalistas, Yogi Nkrumah, que falou sobre a importância de eventos como o Lama para o fortalecimento da cultura Hip Hop: “Para nós do Fúria Consciente, eventos como esses são de suma importância, porque ele engrandece o Hip Hop, nem digo o movimento Underground, o Hip Hop já se estabelece aqui há mais de 25 anos na cidade de Salvador. E vem desde os encontros estaduais que nós fazíamos, que já chegou a agregar 30 cidades e projetos em Escolas públicas. Nós fizemos o primeiro encontro de Hip Hop em Itapetinga, fizemos também o terceiro em Vitória da Conquista, houve também o quarto encontro de Hip Hop em Lauro de Freitas na questão de gênero. E o ponto central é esse, é entender que a cultura ela cresce e vem fortalecendo as iniciativas de juventude, que muitas das vezes não tem apoio institucional e de nenhuma ONG famigerada do estado. A revolução a gente ver dessa forma aí, que tem irmão nosso fazendo e envolvido no processo, que estão realizando a sangue e suor para dar visibilidade. O Hip Hop dentro da cidade de Salvador e na Região Metropolitana é um movimento que o Estado persegue e amordaça, que estar para além desse frisson de ter likes na rede social. A Polícia continua recriminando a gente, dando tapa na cara de MC, reprimindo pixador, dando voz de prisão em grafiteiro, continuam reprimindo os nossos. Aqui nós temos um trabalho consolidado em vários espaços, e quando chega no carnaval o governo dar duas vagas para os grupos tocarem, nada contra os grupos que estiveram no palco, mas é muito pouco para a demanda que existe e isso é uma forma de mordaça.”

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Lama 4ª edição

Moob ou Mobbzila Mitnick já vem numa trajetória de ascensão no Rap de Salvador desde a sua participação com Baco Exu do Blues no grupo Direto Do Hospício (DDH), onde lançaram um EP com o mesmo título, ouça aqui. Mobb nos disse que a sua experiência no DDH foi fruto de uma realidade que ele vivia, mas exatamente com a sua Mãe e que suas letras se baseavam numa crítica a Psicologia e a Psiquiatria. E atualmente Mobb trabalha na produção do seu primeiro disco solo o Blue Print, o qual ele já lançou algumas faixas extras com participações, como ‘Simpatia jaz’ com Dark MC e ‘O corre’, que tem as participações de Baco, DoisAs e Vandal. Além disso, falamos sobre o EP ‘Personagens’, se quiser aprofundar o conhecimento sobre o EP veja também a matéria do Oganpazan: “Na verdade ‘O personagem’ é um projeto trimestal, vou fazer 3 esse ano e depois vai acabar. Eu já tinha ideia das paradas, são 3 filmes que eu gosto. Os Simpsons, que não é um filme, mas é uma novela em cartoon, muito intenso. O Poderoso Chefão que é uma parada muito louca, tem uma visão de sociedade, de família e de crime, que as pessoas não costumam ter. Esse primeiro EP foi mais relacionado com as críticas sociais que tem no Simpsons e em cada filme. As músicas falam de um personagem específico, o Cletus Spuckler dos Simpsons ele é tipo American Idiot como se fosse Brazilian Idiot, é uma sátira ao personagem. Carl Carson eu fiz uma ligação com o filme ‘Corra (Get Out)’, um filme que une terror com Racismo, com uma sociedade secreta branca que visa sempre ter os melhores dos negros, sempre os utilizando os  mas nunca dando oportunidade real. E a outra track que é com DoisAs, ACAB, que é Chefe Wiggun que é tipo a Polícia Militar.

E o meu álbum vai ser tudo Trap, só mesmo aquele com boombap que eu lancei que dar nome ao CD, que é a ideia do trabalho, é o meu cotidiano. A maioria das tracks eu gravei de freestyle e tudo. Eu estou fazendo um projeto também com outros mc’s como Venas (Coletivo Roupa Suja e ouça aqui sua música ‘Salva nada’). E também quero lançar outro projeto chamado “Card Game”, que serão 53 tracks, uma será eu sozinho e resto serão 52 participações.”

E por fim, conversamos com Vandal, o mc que coincidentemente também foi responsável por fechar a 7ª edição do Lama. Vandal que já está a mais de 10 anos produzindo Rap na cidade, em 2015 lançou sua mixtape Tipolazvegazh – escute aqui – e no começo de Fevereiro Vandal concedeu uma entrevista ao jornal O Estadão, onde falou sobre a sua carreira, projetos, o cenário musical de Salvador e questiona que a música Sulicídio de Baco Exu do Blues e Diomedes Chinaski tenha sido um ponto de mudança para o Rap nordestino, para Vandal a música beneficiou apenas os dois mc’s responsáveis pela composição. Se quiser ler a entrevista completa clique aqui. E foi justamente sobre esse ponto, de um suposto impacto de Sulicídio que nós iniciamos a conversa, leia e veja porque Vandal ‘cospe mais do que uma gunshot’: “Eu digo a verdade, ‘Sulicídio” abriu as portas para os dois mc’s que fizeram a música, temos que parar com essa hipocrisia, e não existe nenhum tipo de rusga, de cisma, de inveja, de nada, só estou falando a verdade. Eu trabalho há 10 anos, não posso dizer que São Paulo ou Rio de Janeiro me conhece, ou qualquer outro local, por causa de Sulicídio, quer dizer, que foi preciso os caras mandarem eles se fuderem, para prestarem atenção aqui? Eu não entro em nada, não tenho nada a ver com isso. O que eu quero deixar bem claro é o seguinte: Existe pessoas que estão trabalhando aqui há 10 anos, tudo que estar sendo feito, nós já fazemos a mais de 10 anos, essa é a minha parada. Eu não tenho culpa se São Paulo, Rio de Janeiro e etc, só veio enxergar depois que os dois mc’s fizeram a música em questão, eu não posso deixar que 200,300 pessoas que já vinham trabalhando com isso, sejam agora colocadas num rol de visibilidade por causa de uma música. Inclusive é até um desrespeito com as outras pessoas, eu não quero ser conhecido como um cara pós Sulícidio. Foda – se o Sulicídio, eu quero ser conhecido como Vandal, trabalhador da cidade de Salvador há mais de 10 anos, com ou sem Sulícidio.

A Ugangue já vinha enchendo as praças do Pelourinho com Rap há muitos anos, a ideia é a seguinte, lutar pelas pessoas que trabalham nas trincheiras da música nessa cidade há muito tempo. Tem que se falar de DaGanja, que foi um mc que fez contato vários outros mc’s de fora e facilitou de muitos mc’s, da Ugangue, do que fazem Makonnen Tafari e DJ Akani no estúdio Back to Back,  posso citar um milhão de nomes aqui, de pessoas que não puderam continuar na rua. Se você for pegar os bairros que são fortes aqui, posso falar do São Caetano, que até hoje tem a batalha lá fortíssima (A batalha de mc’s na era da informação) e você vim dizer que se eles forem vistos é por causa de Sulícidio? Não é assim não. Temos que respeitar os mc’s que fizeram a música, ponto para eles e que eles consigam tudo nada vida. A minha preocupação é inserir o Rap de favela, o Rap de comunidade ali, simples e objetivo. É só pesquisar no Youtube, olhar os vídeos, procurar as fotos, conhecer a história e vê que nada disso é novo.

E atentar não só para os artistas de Salvador, mas também para Feira de Santana, Itabuna, Vitória da Conquista, Aracaju, Natal, Recife, do Tocantins, Acre, Amapa, Amazonas e geral. Vamos parar de querer segmentar e criar pontos de partida, porque isso já vem acontecendo, é simples. Eu não quero que se crie um ponto de partida com o meu trabalho”.

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Lama 6ª edição

Ao mesmo tempo é inegável que hoje se multiplicou o número de mc’s e grupos de Rap em Salvador, inclusive alguns dele participando de canais de Rap como o RapBox, a exemplo de Dark e DoisAs. Nós encerramos o diálogo com um comentário sobre esse momento de progresso que estamos passando na cultura Hip Hop da cidade:O que eu acho que tem que acontecer é a mudança para o povo, o progresso ele acontece, estamos tendo acesso, mas eu ainda vejo que tem uma mudança para certas pessoas, para determinado seguimento musical. A gente tinha os boys, agora nós temos o ‘Rap negro Cult’, não tem um Rap negro de favela, de periferia, eu não me enxergo nesse Rap. Apoio o Dark, bom mc, é um cara verdadeiro e apoio vários outros mc’s. O RapBox está li, mas ele não pode ser um parâmetro, já me pararam para dizer: ‘Pow Vandal um dia você vai no RapBox, reze e pá’. Eu não preciso, quer dizer, que meu trabalho só vai ser gabaritado se ele for para o RapBox? Um mc de Aracaju ou de Natal só vai ter o seu trabalho reconhecido se passar pelo RapBox? Todos os caras que vão para o RapBox já são bons, tem que parar com isso. Existe uma pseudo fama, você olha o instragram, tem gente com 50 mil seguidores, 100 mil em diante, mas na rua, essa pessoa não tem relevância nenhuma. O Jay Z falava uma parada muito louca: ‘Mulheres mentem, os homens mentem, mas os números não mentem’. Hoje em dia nós estamos em uma era que contradiz isso, homens mentem, mulheres mentem e os números mentem.”

Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/Salvador 

 

 

 

 

 

 

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