Nois por Nois lança o clipe ‘Homem Invisível’: Uma fama sem glória e que não tem final feliz

 

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“Sua vontade em se tornar visível dentro dos bang fez ele se tornar mais invisível que antes!”

 

Henrique Oliveira*

 

O Grupo de Rap Nois por Nois lança o clipe da música ‘Homem Invisível’, a primeira faixa do novo disco que vem sendo produzido, cujo nome será T.E.M.A (Terror em Máxima Amplitude).

O grupo de Rap criado em meio as favelas e palafitas da Baixa do Petróleo (Cidade Baixa/Salvador-BA),surgiu por causa do amor à música, e pela vontade de protestar diretamente contra a opressão que implanta o ódio e o desamor nas periferias do Brasil, fazendo com que conterrâneos e contemporâneos se matem com as suas próprias mãos ou se confundam com os seus próprios olhos, pela cor, classe social ou até mesmo por metros quadrados.

O Nois por Nois que vem lutando diariamente contra o preconceito e contra as armadilhas do sistema tem como inspirações grandes e nobres nomes na história da humanidade, como: Che Guevara, Zumbi, Martin Luther King, Carlos Lamarca, Marighella, Malcolm X, dentre outros. E trazem grandes nomes como inspirações musicais de dentro do rap e fora dele também. O grupo é formado por dois integrantes, sendo eles: Elton de Oliveira (SAQK) e Jonatha Barreto (Jhomp), ambos moradores do mesmo bairro onde os próprios cresceram e residem atualmente. O Nois por Nois é anfitrião e organizador do evento de Rap chamado Baixa em Alta, realizado todos os anos numa praça pública, veja aqui a cobertura que fizemos no ano passado da 5ª edição.

Em 2016 o grupo lançou seu primeiro trabalho ‘Qual é o seu circo?’, que tem 18 músicas, com várias participações como Nova Era, Tiago Negão, Contenção 33, Diego 157, Saca Só, Ministério Clamor, mostrando porque que é Nois por Nois.  E nesse trabalho de estreia o grupo já mostrou quais são seus objetivos no Rap, fazer protesto e denúncia.  O disco tem músicas como ‘A peça’, em que os mc’s dizem que as bocas deles são armas para cuspir rimas contra o sistema.  Além de ‘Plano B’, ‘Do elevador até a ponta’ e ‘Qual é o seu circo’ onde o grupo faz uma pergunta para cada um de nós, numa sociedade como a nossa desigual e violenta, quem está sendo feito de palhaço enquanto alguns estão sorrindo? Ouça aqui o disco completo.

Os dois mc’s participaram da gravação das cyphers Trem Bala parte 1 e Trem Bala parte 2.  Jhomp gravou a cypher Trem Bala parte 1 juntamente com os mc’s  High e Torre do Contenção 33 e MC Xarope, mandando um recado para a juventude negra  que o crime é ilusório. Em sua parte, o mc Jhomp reafirma o compromisso com o Rap dizendo que ele até acha bonito esses grupos que cantam sobre carro, sobre dinheiro, mas o foco dele é outro, é tirar o gueto da mira da repressão policial. O clipe contou com a produção de imagem do Rap cultura, produção musical de Dactes e divulgação no canal do RapBox, veja  aqui.

O Trem Bala parte 2 contou com a participação de Elton (Saqk) e também de MC Xarope, Sepet, Aurea Semiséria, Bulldogg e Sabótico, mostrando que o Nois por Nois estava a todo vapor na locomotiva do Rap soterapolitano. E assim como na parte 1, a parte 2 também contou com produção de imagem do Rap Cultura e produção musical de Dactes, assista aqui.

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Elton (Saqk) e Jonathan (Jhomp)

O clipe ‘Homem Invisível’ começa com uma tomada do alto do bairro da Massaranduba,  as filmagens foram feitas por Matheus Reis e contou com a assistência de Ícaro Luan.  As imagens nos possibilitam ter uma dimensão social de qual realidade o grupo estar falando na letra. Além de contar com a participação de atores da própria comunidade, que são identificados nos créditos do clipe.

A música em si é uma narrativa muito bem articulada pelo mc Saqk, que também foi um dos idealizadores do roteiro que conta a história de um jovem negro, periférico, em busca de sair do anonimato, da invisibilidade social causada pela desigualdade, acaba adentrando ao mundo do tráfico de drogas, uma realidade infelizmente tão atual, mas que já vem sendo relatada e denunciada pelo Rap há décadas.

A música que tem o beat produzido por MC Calibre, mixagem e masterização de Diego 157, vem numa hora muito oportuna, pois estamos falando de um problema social que é gritante em Salvador: o assassinato de jovens negros. Segundo o Mapa da Violência, Salvador é a quinta capital brasileira em assassinatos de jovens no país e a sua ampla maioria são jovens negros. Ao mesmo tempo não se pode negar que grande parte desses homicídios tem como pano fundo uma relação com o tráfico de drogas, que se tornou para os jovens negros vulneráveis pela pobreza, pelo racismo e exclusão social, uma chance de se tornar um ‘visível’. O que nos permite trazer para a reflexão uma frase dita pelo grupo Racionais MC’s na música Vida loka parte 2 : “Viver um pouco como um Rei ou muito como um Zé?”. E nessa tentativa de viver pouco como um Rei, a nossa juventude vem perdendo a vida como uns Zés, tentam ser Rei mas não conseguem o trono e nem a coroa, nascem e morrem como invisíveis. Uma tragédia social que não pode de forma alguma continuar sendo invisibilizada.

 

 

Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/Salvador

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