ACABA DE ME MATAR – O manifesto da sociedade angolana contra o governo

Protesto pela enorme falta de empregos “ACABA DE ME MATAR”

“Manifesto voluntario da sociedade se tornou numa campanha que se caracteriza pela sua criatividade, espontaneidade e sobretudo muito provocante”

*por Filipe Kiangala Rodrigues Aço

ACABA DE ME MATAR” é um manifesto fotográfico que tem um forte apelo via redes sociais e que começou depois que uma criança morreu, vítima das fortes chuvas em Luanda no mês de Fevereiro deste ano. Este manifesto voluntario da sociedade se tornou numa campanha que se caracteriza pela sua criatividade, espontaneidade e sobretudo muito provocante pois tem algumas imagens que pretendem causar choque, impressão e algum terror. São fotografias de pessoas que aparecem com um ultimo golpe que acaba por matar.

Este golpe é originado por um  problema específico devido a má governação em que apela o responsável a dar o golpe de morte, se não resolve então acaba de me matar. Então a criatividade foi posta a prova e os angolanos têm se esmerado por buscar os problemas sociais que mais têm afectado e que sobretudo tem a responsabilidade do governo de Angola. Os angolanos a muito tempo que desejam e reclamam por mudanças significativas e melhorias na qualidade de vida.

No actual momento em Angola, está a ocorrer uma transição política importante, significativa e muito delicada. A população em todos sectores da sociedade almeja por uma grande mudança na forma como vai ser governado o pais nos próximos tempos, se deseja um verdadeiro corte com as praticas de governação anteriores. A corrupção está instalada de tal maneira em Angola que qualquer programa ou projecto bem elaborado seja pelo governo ou por outra instituição que por vezes é internacional para dinamizar ou melhorar algum sector da sociedade como saúde, industria, educação etc. tende a fracassar ou a não atingir os objectivos mínimos ou a não causar grande impacto.

Os hospitais mais importantes da cidade tanto privados como públicos têm a falta de materiais e equipamentos. Os hospitais públicos têm muito mais carências, como por exemplo, a simples falta de seringas ou luvas e pedem aos familiares ou acompanhantes dos utentes, esses utensílios hospitalares para que os médicos possam fazer pelo menos á assistência mínima. No sector da educação os professores têm salários de vários meses em atraso, falta professores em escolas, falta de equipamentos para as escolas e falta de mais escolas para a dimensão da população. Algumas estruturas e infraestruturas que foram construídas recentemente pelo governo anterior como por exemplo as estradas já apresentam sinais que revelam a má qualidade dos processos construtivos aplicados. Os angolanos têm noção que o governo pagou por estas estruturas e infra-estruturas um valor mais alto do que se essas fossem contruídas em outras partes do mundo e para além de não se traduzir em qualidade, ainda apresentam problemas que só se justificam pela má gestão desses projectos.

As importações em Angola têm um grande impacto, por exemplo na industria alimentar os grandes investimentos que foram feitos até agora no sector de produção de alimentos não diminuíram em nada, essa quase total dependência. Sendo assim, temos fundos significativos destinados a vários sectores para a reconstrução do país e os resultados da aplicação destes mesmos fundos são muito negativos.

O problema do lixo é retractado nessa imagem, “ACABA DE ME MATAR”

Os angolanos mesmo na capital Luanda se debatem com muitos problemas básicos como por exemplo o saneamento que é muito deficiente na cidade e como consequência disto muitas ruas ficam alagadas quando se dá uma precipitação muitas vezes insignificante. É comum carros e pessoas passarem por essas águas das chuvas ou de esgotos a caminho dos seus destinos diários como os seus empregos ou escolas.

Em Luanda capital de Angola somente uma pequena parte da cidade é urbanizada ou seja dos cerca de 6.000.000 de habitantes apenas uma pequena parte vive em áreas devidamente urbanizadas com infraestruturas mais ou menos adequadas. Mas os problemas não são só em Luanda, mas sim pelo pais todo.

Manifesto contra os baixo salários dos professores, “ACABA DE ME MATAR”

Perante a conjuntura actual com a corrupção descontrolada, falta de assistência de ordem material, educacional, alimentar e sanitária, o manifesto “ACABA DE ME MATAR”, vem de forma pacífica mas bem interventiva lutar contra todos efeitos negativos da anterior governação que causaram problemas sociais graves, uma vez que anteriormente todas as manifestações foram habilmente evitadas por quem estava no poder a mais de 38 anos. Foram reprimidos protestos contra falta de pagamento de meses de salários em atraso como também a reclamação por aumentos uma vez que muitos salários não cobrem a cesta básica, foram reprimidos os apelo a mais liberdade de expressão, a mais emprego pois o nível de desemprego é bem elevado, protesto contra a falta de a habitação, falta de escolas, falta infraestruturas públicas como rede de água, electricidade e saneamento, falta de segurança etc.

Manifesto pela falta de saneamento na cidade, “ACABA DE ME MATAR”

Muitos optaram por registar no seu manifesto “ACABA DE ME MATAR” problemas do seu quotidiano mais restrito como por exemplo situações relacionadas com a falta de direitos ou condições em sua profissão ou vida doméstica.

As manifestações na anterior governação mesmo que comunicadas de forma legal, estas eram por sua vez orientadas para locais em que não causaria grande impacto, ou o que acontecia muitas vezes era a marcação em momento oportuno de uma outra manifestação por elementos afectos ao governo, por vezes a procissão de alguma igreja, para assim proibirem que cidadãos agastados com os problemas causados pela governação realizassem o seu protesto.

O emblemática Largo da Independencia[i], que é o lugar predilecto para uma grande manifestação em Luanda, foi muitas vezes vista durante o anterior governo sendo fortemente protegida por policiais paramilitares com cães e todo equipamento para dispersar manifestantes para além de estarem equipados com armas de guerra. Era impossível manifestar nessa praça. Jovens corajosos como Luaty Beirao[ii] tentaram varias vezes e das várias vezes foram brutalmente agredidos, presos e acusados de rebelião, levados a tribunal e julgados. Nos meios oficiais eram vistos como rebeldes e desta forma o anterior governo consegui eliminar toda iniciativa de protesto ou revolta.

Largo da Independência em Luanda

ACABA DE ME MATAR”, se tornou impactante e rapidamente se viralizou pela redes sociais, com as fotografias mais chocantes desferindo o último golpe resultante dos problemas causados pela má governação aos cidadãos angolanos.

Como podemos ver nas fotografias que estão espalhadas pelo Facebook, instragram, em muitos grupos de whatsapp e também dando matéria para alguns órgão de informação independentes. O manifesto chegou a todas as plataformas da imprensa e obviamente não teve divulgação nos órgãos oficiais como era de esperar. Mas fica como a primeira grande manifestação da sociedade nesta nova fase em que Angola se encontra.

Protesto pela falta e subida de preço dos bens alimentares, “ACABA DE ME MATAR”

Contudo essa manifestação é motivada não só pela revolta e ímpeto juvenil, mas também pela grande esperança, de que os dirigentes passem a ter mais consciência das suas acções e se tornem realmente servidores públicos. É motivada pela vontade de uma grande mudança, sentimento que todo angolano carrega desde Setembro de 2017, altura em que ocorreram as eleições gerais e que embora tenha ganho o mesmo partido que estava ligado ao anterior governo, a verdade é que ao novo presidente está a ser dado o voto de confiança necessário pela maioria dos angolanos na esperança, de que, com a sua nova visão para o país venha trazer realmente, os benefícios almejados por todos, pois para além das inúmeras riquezas que se encontram no solo, subsolo e costa marítima de Angola a maior delas todas é o seu povo simples e generoso.

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[i] Nesse largo se encontra a estátua de António Agostinho Neto que foi um médico, escritor e político angolano, uma das principais figuras do país no século XX. Foi Presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e em 1975 com a proclamação da independência tornou-se no primeiro Presidente de Angola  até 1979 ano em que morreu.

[ii] Henrique Luaty da Silva Beirão (Luanda, 19 de novembro de 1981) é um rapper e activista luso-angolano conhecido pelo seu ativismo em prol da liberdade de expressão, democracia e luta anti-corrupção

* Filipe Kiangala Rodrigues Aço, nascido e residente em Angola, engenheiro electrotécnico, trabalha em projectos de energias e águas.

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