O simbolismo narrativo da prisão de Lula: Como um bom ‘animal político’ vence uma batalha

 

Lula - Rever

A vitória de Lula sobre os seus algozes ainda não veio pelas vias jurídicas legais, mas ele triunfou  ao construir e obrigar a grande mídia – que é um dos seus maiores opositores – a contar a narrativa da sua prisão da forma como ele planejou”

*por Diogo Costa

Nesse contexto em que um grande complô de poderes se uniu para arrancar a cabeça do ex-presidente Lula e exibi-la em praça pública, a única vitória que coube ao ex-metalúrgico do ABC Paulista até aqui foi, paradoxalmente, através da comunicação. Foi ela a grande cartada do homem que ganhou notoriedade mundial pelas seus ideais políticas e sociais – e também pelas acusações jurídicas-políticas-midiáticas –  que agora encontra-se politicamente preso na superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, Paraná.

Aí está o primeiro simbolismo dessa narrativa: do mundo para uma cela de 15 metros quadrados, no quarto andar do prédio da PF, cuja única janela que dá para a rua é coberta por grades. Lula está diretamente incomunicável, em um lugar de onde os seus ideais sociais e a suas políticas não ressoem com facilidade. Essa é uma das facetas simbólicas do seu aprisionamento, que além dessa, carrega tantos outros.

O seu confinamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC logo após a negativa do habeas corpus pelo STF deu um grande norte para a história. Lula não estava em qualquer lugar, mas no seu berço político. As imagens que chegaram aos montes (pelas redes digitais ou pela TV) do prédio onde Lula permaneceu sitiado até sair carregado nos braços do povo fizeram com que muitos – dali ou de onde estivessem –  relembrassem que foi daquele lugar onde saiu um trabalhador operário para assumir a mais alta chefia deste país, e que agora sente o peso da ira política dos seus opositores.

A propósito, sair para a prisão carregado nos braços do povo tem um grande significado na construção dessa narrativa: seus algozes o prendem, mas o povo quer vê-lo solto. A essa altura, evidente, não mais todo e qualquer povo, mas aquele povo que viu a vida mudar, de uma forma ou de outra, quando o homem que ganhou (por um longo tempo) o status de representante dos trabalhadores chegou ao poder. Ao descumprir a ordem judicial para se entregar, evoca o símbolo de resistência. Resistência a uma prisão política com aval do judiciário.

Seu último discurso antes do cárcere também foi carregado de simbolismo. Era o dia em que a sua esposa, Dona Marisa Letícia, comemoraria aniversário. A possível morte política de Lula, marcada pela sua prisão, seria vista mundialmente no mesmo dia em que a sua companheira, que morreu envolta ao desgosto pela situação a qual a sua família se encontrava, celebraria o seu aniversário de nascimento.

Com as incertezas da sua permanência no páreo político das possíveis eleições de outubro (talvez saibam o motivo de uso do possível no texto), Lula discursou ao lado de Manuela D’Ávila, pré-candidata ao Planalto pelo PCdoB; e o líder social Guilherme Boulos, também pré-candidato ao Planalto pelo PSOL. As duas legendas que deram apoios importantes ao Partido dos Trabalhadores – do qual Lula é um grande nome –  em momentos importantes para a sigla. Uma forma de legitimá-los simbolicamente como dois nomes possíveis, caso não reste saída alguma possível para o PT.

A vitória de Lula sobre os seus algozes ainda não veio pelas vias jurídicas legais, mas ele triunfou  ao construir e obrigar a grande mídia – que é um dos seus maiores opositores – a contar a narrativa da sua prisão da forma como ele planejou. Lula usou a comunicação para dizer aquilo que gostaria de dizer, mas sem verbalizar uma palavra apenas. Disse através do simbolismo. Essa cartada só legitima ainda mais a sua alcunha de animal político (tantas vezes utilizada pela grande mídia em tom negativo). Essa teoria política aristotélica considera, vagamente explicando, que o homem é um animal político por natureza, pois ele, diferente dos outros animais, é dotado da razão e do discurso.

Lula construiu o sentido da razão no seu discurso por meio dos símbolos. Um dos mais fortes deles foi o dos seus apoiadores cantando, em coro, “Lula lá, brilha uma estrela”, jingle que marcou as suas campanhas políticas até a sua chegada no Planalto. Foi com esse simbolismo que Lula entregou os desdobramentos da sua narrativa ao povo. E ao povo caberá dizer se Lula será o Mandela brasileiro.

* Diogo Costa é jornalista graduado pela Faculdade de Comunicação da UFBA e mestrando em comunicação pela UFS.

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