Tsunami feminista toma conta do Chile

 

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Agência Uno

Sabrina Aquino*

 

No Chile, maio foi tomado pelo lilás. Isso se deve a um verdadeiro tsunami feminista que dominou a discussão pública no país e ganhou os meios de comunicação, como resposta positiva à força das ocupações das universidades por coletivos feministas de dentro e fora do movimento estudantil, em denúncia aos casos de violência sexista e para demandar o fim do acobertamento institucional dos assediadores por parte das Reitorias, dos assédios e abusos que superam 100 denúncias por ano nas universidades chilenas, e melhorias nos mecanismos para denúncias e celeridade nos processos.

As primeiras ocupações surgiram dia 17 de abril na Faculdade de Humanas da “Universidad Austral” (UACH), em Valdívia, e logo outros departamentos foram se somando às reivindicações. Em seguida, em outra sede da mesma Universidade, somaram-se um total de 35 cursos em greve estudantil. Juntamente com organizações feministas paralelas às federações estudantis, as #TomasFeministas geraram uma petição em solidariedade às companheiras de Valdivia.

Rapidamente as ações de apoio articuladas com outras universidades foram ganhando peso e no dia 27 de abril juntou-se à greve a faculdade de Direito da “Universidad de Chile” (Santiago). As alunas elegeram representantes, começaram a trabalhar linhas políticas, e uma petição com as exigências foi definida em assembleia. Entre as demandas, a exigência da retirada do acadêmico Carlos Carmona, denunciado por abusar de uma das alunas do curso.

As assembleias feministas instauradas nas “tomas” (ocupações) crescem e vão tomando forma e consistência política. Exige-se que a violência de gênero seja vista como fenômeno estrutural, e que a abordagem não seja meramente punitivista – isto é: existe um intenso debate sobre política educacional estrutural, com apoio de acadêmicas, que enfrenta o nariz torcido de outras figuras do  meio .

O descontentamento e a raiva contra a violência de gênero  se converteram em debate nacional porque as feministas haviam ocupado e paralisado mais de 35 universidades. Em reuniões entre ministros, painéis de especialistas no assunto “gênero e feminismo” na televisão, meios de comunicação de rádio e televisão aberta, grupos de amigos, na mesa de almoço de domingo: só se fala em feminismo. Os movimentos universitário e secundarista conseguiram levar a discussão para dentro das casas das famílias chilenas, um país explicitamente conservador, ao paralisar as funções das universidades e algumas escolas para exigir protocolos para sancionar o abuso e o assédio de membros da comunidade estudantil. Mas logo em seguida, as assembleias geradas nas ocupações levantaram a percepção de que a luta tinha que ser por algo mais profundo, para transformar a cadeia de reprodução de violência e exigir uma educação não sexista e verdadeiramente igualitária.

Em linhas gerais, as ocupações feministas em suas demandas vêm exigindo coisas como formação na comunidade acadêmica com perspectiva de gênero, medidas de prevenção, fortalecimento dos mecanismos estabelecidos, eliminação os conflitos de interesses, respeito a identidades de gênero e nomes sociais, mais bibliografia composta por mulheres, o fim das carreiras para mulheres e para homens, a modificação dos planos curriculares para incorporar cursos obrigatórios com enfoque feminista, cursos de capacitação para professores e trabalhadores com enfoque de gênero e diversidade sexual, protocolos de fácil acesso, mais mulheres em cargos de liderança, ambiente que assegure condições para mães estudantes e trabalhadoras.

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Agência Uno

  A resposta à articulação dos movimentos estudantis feministas, sem dúvida, transmitiu um questionamento importante a todas a mulheres chilenas. A violência sexual é parte do cotidiano nos lugares de trabalho, em casa, na rua. A massividade desta mobilização claramente não é casual, e sem dúvida é uma continuidade de um processo das lutas feministas de outras épocas e frentes, somando-se às jovens que vêm cada dia mais ganhando força e reconhecimento, não somente nos espaços acadêmicos, e apropriando-se das discussões cotidianas, instaurando a necessidade de uma mudança no cerne das representações culturais de massa e também na disputa política. Na eleição presidencial de 2017 a coalizão partidária “Frente Amplio”, que se instalou como a terceira força política nacional,  foi representada por uma candidata feminista, Beatriz Sánchez, que apresentou um programa de governo construído por propostas vindas de assembleias cidadãs em todo território nacional, com dinâmica e marco metodológico feministas. Soma-se a essa trajetória atual a crítica sobre o caráter da educação neoliberal chilena, que vem sendo foco importante da atividade política do movimento social estudantil desde a Revolución Pinguina de 2006, e as revoltas do movimento estudantil de 2011.

Tomando essa história de um passado de lutas recentes, as feministas sabiamente questionam a divisão sexual e reprodutiva do trabalho perpetuadas pelas instituições, e assim, questionam diretamente a sociedade dividida em classes, tendo o sistema educacional como seu principal agente condicionador que reserva papéis de gênero bem definidos: reprodução e cuidados no que tange à vida privada para mulheres, sendo o lugar público e êxito financeiro como meta de vida para os homens. Assim, a “Ola Feminista” no Chile se levanta questionando o modelo de educação que hoje é sexista, exigindo que o ingresso seja universal e gratuito, para derrubar uma sociedade que necessita dos padrões cis/hetero normativos para sustentar o poder patriarcal capitalista.   

O movimento ganhou as ruas. No dia 16 de maio a CONFECH (Confederação de Estudantes do Chile) convocou uma marcha nacional para exigir Educação não sexista e reuniu aproximadamente 100 mil pessoas nas ruas de Santiago, e outros milhares em diversas cidades por todo o país. A convocação foi exitosa, e mediante a pressão o presidente Sebastián Piñera respondeu publicamente às manifestações, certamente se vendo acuado. Piñera e seus ministros rapidamente tiram da cartola o que chamam de “Agenda Mujer”, que recorrem insatisfações que até pouco tempo negavam este próprio governo. Não obstante, mantém intactos os papéis de género que nos faz “responsáveis naturais” pela casa, filhos, família e cuidados em geral. Papéis de gênero que se expressam fortemente em carreiras (professoras, enfermeiras, empregadas domésticas, etc) e trabalhos “para mulheres”, menos valorizados, e que justificam e aprofundam a feminização da pobreza. Em sequência a esta declaração paternalista (Piñera se refere à população feminina do Chile como “nossas mulheres”), mulheres que compõem seu governo de direita começam a reivindicar-se feministas, com um discurso coordenado dando a entender que “o feminismo é transversal e não tem ideologia”.

Nós, as feministas anticapitalistas, continuamos resistindo em ocupações e nas ruas, convocando assembleias, instalando as nossas linhas políticas contra-hegemônicas. Certamente ao apresentar suas propostas, o atual presidente acirrou a disputa de narrativas que já se havia instaurado nos meios de comunicação e na academia, e tratou de colocar-nos em cheque apresentando suas “soluções institucionais para acabar com a desigualdade”. O problema real da agenda do governo é trazer propostas de leis antigas com foco em “gênero”, que seu próprio partido e coalizão de direita vetaram muitas vezes quando oposição, e descaradamente apresenta tais ideias como se fossem novidade, sem responder a nenhuma das reivindicações feministas.

Claramente é uma tentativa de deslegitimar o movimento feminista perante a opinião pública, como quem diz: “apresentei soluções, continuam ocupando as universidades porque são intolerantes e baderneiras”.

Não obstante, seguimos, ainda em ocupações, ainda que lamentavelmente vá se desgastando e baixando o número de tomas a medida que o tempo passa, pois aumentam o frio e a repressão. Continuamos pressionando e convocando para as ruas, porque o que queremos não cabe nas pastas dos governos, muito menos em um governo de direita. Enquanto isso o governo se pergunta “o que querem?”.

Bem, agora que estamos juntas, agora que nos veem, gritamos: abaixo o patriarcado, pois ele vai cair. ¡Arriba el feminismo, que va vencer que va vencer!

Sabrina Aquino é brasileira radicada no Chile, formada em História e encarregada da equipe feminista de Nueva Democracia.  

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