Lápide Rec lança “Solto na pista”, porque água ungida não é dendê

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Imagem: Suco Produções

Henrique Oliveira*

O selo Lápide Rec fundado em 2017 em Salvador, que congrega grupos e mc’s de Rap da cidade entre eles os Coletivos Roupa Suja e Vira Lata, Chester mc, Shook mc, Família 4:15, Rafael mc e Napa mc, com o intuito de produzir, divulgar trabalhos  para o fortalecimento do cenário local, acaba de lançar mais uma música, “Solto na pista”. Anteriormente o selo já havia soltado na pista as faixas 40 mil problemas com os mc’s Momo bb, Vírus e Chester,  Rede móvel com os mc’s Celo Dut e Chester.

Esse novo lançamento tem participação de Shook mc (Eduardo Nogueira) que desde a infância sempre foi um sonhador, no princípio queria ser jogador de futebol, mas no tempo da Escola quando estava na 6ª série começou a fazer as suas primeiras rimas. A partir 2015 começou a participar de rodas de freestyle e batalhas de mc’s. Shook, filho de Oxóssi, é militante antiracista, inspira sua luta contra as desigualdades por meio do Rap após ver a dificuldade e as humilhações passadas por sua Mãe que trabalha como empregada doméstica, num país que até poucos anos atrás não incluía essa categoria nos direitos trabalhistas existentes. 

Vírus mc (Jônatan Galdino) faz parte do Coletivo Roupa Suja, já atuou em companhias de teatro como “Herdeiros de Angola” e “Cia de teatro infantil BIML”, nascido na estruturalmente precária, mas culturalmente viva região do subúrbio ferroviário de Salvador, participou por 3 meses da ocupação do Ministério da Cultura em Salvador, quando o mesmo foi ameaçado de ser desativado pelo desgoverno Temer. 

Momo bb (Lucas Sá Barreto) é idealizador do Coletivo Roupa Suja, compositor, artista de rua, escritor, mais um jovem sonhador, que atua nos Movimentos Sociais como a biblioteca comunitária Zeferina Beiru, localizada no bairro do Arenoso, se encantou pela música ao acompanhar a sua mãe nas saídas do bloco Ilê Aiyê no tradicional Curuzu. 

E por fim, mc Napa (Alisson Ferreira), que também é da região periférica do Subúrbio, começou a escrever música aos 10 anos,  quando era obrigado pelo seu pai a cantar na Igreja. E traz no seu Rap não só a arte também um desabafo pessoal. 

A captação de áudio, mixagem e masterização foram realizadas no estúdio NacaladaRec, as imagens do clipe foram feitas pelo estúdio de arte criativa Suco Produções, durante a terceira edição do Baile de Preto, na também Suburbana, idealizado por Maurício Santos (Admiral mc)

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Imagem: Suco Produções

E logo no começo da música mc Vírus já começa realizando uma crítica ácida ao apagamento histórico das contribuições do Antigo Egito para a humanidade, sobretudo para o mundo dito ocidental, que centram suas heranças culturais nas antigas sociedades gregas e romanas como os berços da nossa civilização. Logo em seguida emenda uma análise sobre o processo de colonização, em que deuses indígenas e africanos foram destruídos e substituídos por divindades cristãs europeias. Se liguem nessas referências.

O mc Napa faz uma denúncia da violência policial, já que a Polícia baiana é a terceira força policial que mais mata no Brasil, especialista em forjar flagrante de prisão e tiroteio para justificar execuções sumárias, como foi o recente caso do artista plástico Nadinho, que foi morto com tiro pelas costas, por Policiais Militares que alegaram troca de tiro e apresentaram uma arma com numeração raspada, o famoso “kit flagrante”. Quantos não já morreram assim? Pois como bem diz Napa em seus versos, o que vigora na Bahia não é o programa de segurança pública “Pacto pela vida”, mas sim “pacto para tirar vida, porque quando chegam os ‘tiras’ o lema é atirar e perguntar depois”.

Shook mc aborda o problema do desemprego familiar, em um país com mais de 13 milhões de desempregados, cuja maioria são pessoas negras, principalmente a juventude negra. O refrão ficou por conta de Momo bb, que não deixa cair no esquecimento pessoas importantes para o cenário do Rap e para a cultura de rua, os pixadores Obzo e Mito, que não se encontram mais em vida. É mais uma track que mostra a qualidade do Rap baiano na tal terra do axé music, onde os beats, os versos e o flow tem dendê.

 

Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/Salvador

 

 

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