Todos Senadores de Sergipe têm familiares como os donos de emissoras de rádio

 

Senadores de Sergipe (capa)

 

Matheus Dantas*

 

Segundo informações cruzadas da Anatel, Receita Federal e TSE com a plataforma Cruza.Dados.org, os Senadores Valadares (PSB) e Eduardo Amorim (PSDB) possuem irmãos que são donos de rádios no estado. Já filhos da Senadora Maria do Carmo (DEM) aparecem como sócios e administradores de diversas emissoras de rádios espalhadas por Sergipe.

Quem mora em Simão Dias (SE) sabe de quem é a única rádio com boa qualidade de sinal na região. A Tropical FM tem como sócio-administrador Zé Valadares (PSB), ex-prefeito da cidade por três mandatos e irmão do senador Valadares (PSB). Reconhecido pelo chapéu panamá que usa durante as sessões do Senado, Valadares representa Sergipe lá desde 1995. Com três mandatos consecutivos, ainda não sinalizou se vai concorrer a uma reeleição na casa, o que lhe traria um recorde sergipano. Ele parece querer concentrar as forças dos seus 75 anos em seu filho, o Deputado Federal Valadares Filho (PSB), numa possível candidatura ao Governo do Estado. Independente do seu rumo político em 2018, o público da rádio pertencente à sua família já sabe que possivelmente não ouvirão os candidatos adversários. É mais fácil as rádios de Paripiranga, município da Bahia que fica a menos de 10km de Simão Dias, darem voz aos outros candidatos do que ouvir as propostas para o município de Sergipe no próprio estado.

Isso aconteceu principalmente durante as eleições municipais de 2012, quando o candidato adversário de Zé Valadares utilizou as rádios do município baiano para fazer campanha, mas, segundo moradores da região, a qualidade de recepção das rádios da Bahia não é tão boa quanto a da Tropical FM. A antena da rádio de Simão Dias está localizada no ponto mais alto do município, em uma fazenda de propriedade da família Valadares, o que facilita a entrega de um bom sinal para os moradores da zona rural da região, que representam quase 50% do total, segundo o censo do IBGE de 2010.

Senador Valadares com Jornal. Imagem- Jefferson Rudy Agencia Senado
Agência Senado

Essa região, que fica já na divisa com a Bahia, a 110km da capital Aracaju, não tem um bom sinal de transmissão da TV local e é acostumada a assistir às notícias na TV a partir de antenas parabólicas que captam as notícias das cabeças de rede em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Poucas vezes os assuntos da região do Agreste de Sergipe (onde está Simão Dias) são pautados nas emissoras de maior audiência do estado, que também possuem controle de políticos. A população da região fica assim restrita às notícias locais trazidas pela família Valadares nas ondas do rádio.

Eleito junto com Valadares em 2010 para seu primeiro mandato no Senado, Eduardo Amorim (PSDB) é pré-candidato ao Governo de Sergipe em 2018. Seu irmão Edivan Amorim era sócio-administrador da Rede Ilha, uma rede de rádios do estado com sede na Barra dos Coqueiros (grande Aracaju) e que tinha estações em diversas cidades do interior sergipano desde 1997, segundo dados da Receita Federal. Ela foi arrendada no início deste ano para o grupo Xodó. Mas, antes de fechar as portas, a Rede Ilha ajudou na campanha de Eduardo Amorim ao Governo do Estado em 2014: ela foi usada para denegrir a imagem do candidato à reeleição Jackson Barreto (PMDB), além de ser acusada por propaganda eleitoral antecipada de Amorim. Os abusos da Rede Ilha foram penalizados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe com a retirada das rádios do ar por 24 horas às vésperas das eleições de 2014. O Ministério Público Eleitoral do estado ajuizou um processo contra Amorim e o seu candidato a vice-governador por abuso de poder econômico e uso indevido de meio de comunicação social. Caso sejam condenados, ambos podem ficar inelegíveis por oito anos.

Senadora desde 1999, Maria do Carmo (DEM) foi reeleita para um novo mandato nas eleições de 2014 e ficou conhecida nacionalmente no ano passado pela autoria do projeto que permite demissão de servidor público por insuficiência de desempenho. Casada com o ex-prefeito de Aracaju e ex-governador de Sergipe, João Alves Filho (DEM), é mãe de três filhos donos de quatro rádios espalhados pelo estado além de um jornal impresso de grande circulação, o Correio de Sergipe. Ana Maria Alves e João Alves Neto aparecem como sócio-administradores de rádios em Aracaju, Tobias Barreto, Propriá e Estância. Somente a terceira filha, Maria Cristina Alves, não é sócia da rádio de Estância. João Alves Neto e Ana Maria Alves já foram presos: ele, em 2007 durante a Operação Navalha da Polícia Federal, e ela, no final de 2017, por tentar obstruir investigações do Ministério Público. Na época, Ana era presidente do diretório estadual do DEM. Ambos são sócios da AJN – Agência Jornal de Notícias, que abrange o Correio de Sergipe, a Rádio Jornal AM 540 e um portal na internet com grande audiência em todo o estado. As ligações da senadora com os meios de comunicação do estado não acabam aí. O seu primeiro suplente, Senador Ricardo Franco (DEM), é filho do ex-deputado federal Albano Franco (PSDB) e sobrinho de Walter Franco, proprietários da TV Sergipe (afiliada Rede Globo) e da TV Atalaia (afiliada Record) respectivamente.

Ser Senador e ter irmão, filhos ou qualquer parente dono de rádio, TVs ou jornais não é contra a lei. O art. 54 da Constituição proíbe apenas os próprios Senadores de exercerem ou aceitarem cargos em empresas concessionárias de serviço público sob a pena de perder o mandato. Mas ter um meio de comunicação abrangente, em alguns casos o único disponível, pertencentes à família de um político traz o que pesquisadores chamam de Coronelismo Eletrônico – o uso de canais de comunicação para atender a interesses políticos. Esse mal uso de concessões públicas provoca interferências nas instituições e queda da diversidade em programas culturais e em opiniões. Essa é considera uma prática antidemocrática e que estimula as pautas jornalísticas em nome de um grupo político, filtrando e restringindo informações que são divulgadas na medida dos interesses dos seus donos, se tornando uma forma de censura em que a voz de poucos prevalece e o poder se perpetua.

 

Matheus Dantas é  estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, natural de Aracaju-SE e interessado em política.

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