“Me tratam como excepcional, porque não buscam a cultura produzida na favela” diz Geovani Martins

Geovani Yahoo
Foto: Yahoo

Henrique Oliveira*

Geovani Martins é um jovem escritor carioca que vem despontando como uma das mais novas promessas da literatura brasileira, com um início de carreira meteórico, Geovani lançou em março seu primeiro livro de contos “O sol na cabeça”, pela editora Companhia das Letras, com publicação também em mais nove países, feito até então inédito para um autor brasileiro estreante. O livro teve tradução negociada com as editoras Farrar, Straus and Giroux dos EUA, a Gillamard, da França, a Alfaguara, da Espanha e a Peguin Random House, da China. Mas a rápida ascensão de Geovani Martins como escritor foi precedida de uma trajetória nada fácil, Geovani estudou até o oitavo ano, nos últimos tempos tentou ganhar a vida trabalhando de garçom em bufê infantil, em barracas de praia e como “homem placa”. O gosto pela literatura vem da sua relação com a sua avó, Ana Lúcia, que o ajudou a aprender a ler, formando se leitor através dos gibis da Turma da Mônica sentado no passeio do Bar do Ronaldo, no qual a sua avó é dona, até que na adolescência conheceu as crônicas de Carlos Drummond de Andrade e os livros de Machado de Assis.

Geovani Martins atualmente mora no Vidigal, mas já mudou de endereço no Rio de Janeiro pelo menos umas 20 vezes, nasceu e cresceu em Bangu e morou até o começo desse ano na favela da Rocinha, de onde inclusive escreveu para o jornal Folha de São Paulo sobre a entrada do exército na favela em meio aos conflitos pelo controle do tráfico de drogas, afirmando que “a ação do exército servia para qualquer coisa, menos para levar proteção de fato aos moradores.”    Além de escritor, Geovani também é editor do blog Diários Incendiários, juntamente com a escritora Paloma Franca Amorim, autora do livro “Eu preferia ter perdido um olho” pela editora Alameda, e Evanilton Gonçalves, autor do livro de prosa “Pensamentos Supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo”, publicado na editora Paralelo13s.

Entrevistamos Geovani Martins um dia após ele participar da mesa “A prosa urbana, a literatura e a cidade” na programação da Flipelô 2018 (Festa Literária Internacional do Pelourinho). E na sua visão sobre a cidade, Geovani considera não fazer sentido falar em centro e periferia, “porque a favela tem certa autonomia, em que a sua dinâmica gire em torno de si mesma, onde se vive e trabalha ali, como podemos chamar isso de periferia se as favelas são o centro da vida das pessoas?”

 

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Foto: O Globo

Você teve a sua primeira experiência nas festas literárias quando participou da Flup em 2013 (Festa Literária das Periferias), em 2015 e 2017 foi convidado para a programação paralela da Flip(Festa Literária Internacional de Paraty) e voltou esse ano para o evento principal da Flip após ter lançado o livro. Como você avalia esse percurso da Flup até agora na Flipelô?

Antes de tudo, eu penso como a Flup abre a minha perspectiva para o que é o livro como objeto, como um todo, visão de mercado, de renda, a Flup foi a primeira festa literária que eu participei, e foi também onde tomei conhecimento das outras coisas do país voltadas para a literatura que eu não sabia, a própria Flip eu não sabia que existia até participar da Flup. A Flup também me impactou para pensar a literatura no campo histórico, quando eu vi uma pesquisa mostrando a quantidade de personagens principais que eram negros nos livros da década de 70 até os anos 2000, e a porcentagem era ridícula, eu nunca tinha parado para refletir sobre isso.

E depois de publicar pela primeira vez na Flup em 2013, no ano de 2015 eu fui na Flip para poder falar da revista Setor X, que era uma revista que esteve na biblioteca das favelas da Rocinha, Manguinhos e do Alemão, foi justamente quando eu tinha acabado de saber que a Flip existia. E chegando na Flip aconteceu algo que nunca tinha acontecido antes, que foi o fato de eu estar num ambiente 100% branco, depois eu comecei a perceber que a cidade Paraty não tinha nenhuma relação com a festa, eram coisas paralelas e não se integravam. E sair de lá com várias questões e com a esperança que eu poderia ser um escritor profissional, que até então era uma coisa que eu não tinha assumido para mim mesmo, que iria viver disso, porque muitas pessoas ficaram interessados no que eu fazia e no que eu poderia fazer.

Em 2017 eu volto a Flip como convidado da programação paralela, foi quando eu conheci o Evanilton Gonçalves e a Paloma Franca Amorim, com o livro pronto, depois de ter trabalho nele por dois anos, eu volto com ele para mostrar. E acaba acontecendo tudo muito rápido, conheci o editor do meu livro e depois de uma semana já estava com contrato assinado. E depois do livro ser publicado, de ter vendido os direitos autorais para o cinema, exatamente 365 dias depois eu volto à Flip na programação principal como autor de um dos livros mais vendidos, num curto espaço de tempo onde muita coisa aconteceu. E agora eu chego aqui na Flipelô, mais uma festa literária, em que tenho a oportunidade de conhecer outros lugares do país, já tinha conhecido Belém quando estive na Feira Pan Amazônica e algumas feiras em São Paulo.  Salvador é uma cidade que eu sempre quis conhecer, percebo também que o movimento da festa está se organizando, as dinâmicas das mesas, a programação paralela que se intensificou e mudou bastante o que é a Flip em Paraty, isso está acontecendo aqui na Flipelô também. Eu chego aqui encantando pela cidade, mas percebo que o movimento literário está se unificando no Brasil, entrando em sintonia, coisas que aconteciam na Flip tem aqui na Flipelô também só que já existia na Flup, espero que seja algo que ganhe cada vez mais progressão, que seja fundamental não só para desenvolver os escritores mas os leitores.

No conto o “Rolezim”, você narra inicialmente a preparação dos jovens da favela para ir à praia, e um dos aspectos do conto é a relação deles com as drogas, seja a busca para conseguir um baseado, tem o jovem que trabalhou a noite anterior na endolação de maconha, outro que só quer ficar em casa cheirando cocaína. E a gente sabe que a violência do Rio de Janeiro está ligada a dinâmica da política de “guerra às drogas”. Ao lermos esse conto, existe também uma posição do Geovani Martins sobre a proibição das drogas?

Com certeza, o conto nasce na verdade da necessidade de falar sobre a mobilidade urbana, da dificuldade de acesso, só que a questão das drogas vem atrelada a isso, porque talvez seja a forma de criminalização mais potente que nós temos na cidade, então quando se pensa no indivíduo criminalizado, estigmatizado, ele tá muitas vezes atrelado às drogas. Porque é uma coisa cultural também sabe, é uma coisa que eu tento construir no livro todo, que é a naturalidade com que as pessoas lidam com as drogas, elas estão aí na sociedade, não é nada novo e de extraordinário, que a gente já não conhece como cigarro, cerveja, café, enfim. E alterar a consciência não é algo novo no que pensamos sobre sociedade, é um costume humano muito antigo, a proibição que na verdade é uma coisa muito nova, eu tento tratar isso com muita naturalidade.

E como o conto se passa saindo de um lugar da cidade e indo para outro totalmente diferente geograficamente e socialmente, que permite poder trabalhar a potência e as diferentes escalas de como as drogas são encaradas a partir dos usuários, de que tipo de usuário está consumindo aquela droga ou que está vendendo. E o quanto transitar por esses espaços eu consigo pensar a venda e o consumo de drogas, como isso se reflete e quais são as consequências para cada grupo. No começo do conto a intenção era discuti a mobilidade, mas quando eu me entreguei a ele percebi que as drogas estavam relacionadas pela questão cultural, da idade, não dava para separar a mobilidade da criminalização do usuário de drogas. E como a criminalização das drogas é um dos principais mecanismos de manutenção do controle social no Rio de Janeiro.

 

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Blitz da Polícia Militar, Rio de Janeiro, 2015/ Foto: VEJA

O jornal O Globo publicou uma matéria sobre a sua participação na Flip 2018, na mesa “Atravessar o sol”, e uma pessoa da plateia questionou se você seria tão incensado, ou seja, divulgado, se não fosse um autor vindo da favela como o Vidigal. Você percebe que te tratam como um escritor excepcional pelo fato de ser um jovem negro e vindo da favela?

Eu percebo, e o que eu disse na Flip é que quem poderia responder essa pergunta eram os leitores, porque eu acho que isso diz respeito muito mais a quem tá consumindo e está vendendo, do que quem está produzindo. Quando eu estou fazendo meu trabalho, eu só penso em ser o melhor possível. Eu seria ingênuo ou cínico se não percebesse esse movimento, de como a minha história de vida acaba contribuindo para que a minha figura circule de uma maneira diferente. E isso fala sobre muita coisa, mas quase nada sobre o meu trabalho, que é o mais curioso, fala sobre coisas que estão ao redor, sobre o meu trabalho objetivamente não diz nada.

Eu digo que sou tratado como algo excepcional, como um fenômeno pela imprensa, porque a imprensa já está numa escola de muitos anos, de olhar para favela no viés da violência toda vez que vai cobrir a Rocinha ou Vidigal, então quando aparece um escritor, que não é uma coisa rara, pois existem vários escritores, eles olham como uma coisa excepcional. Se eles estivessem de olho na agenda cultural das favelas do Rio de Janeiro isso não seria tão surpreendente assim. E que está relacionado com uma fórmula da narrativa jornalística, principalmente dos anos 80 para cá, muito ligada ao sensacionalismo, as manchetes polêmicas e subpolêmicas, que muitas vezes o conteúdo nem te leva aquilo que a manchete diz ter.

Essa discussão também vai revelar também como os livros são consumidos, o consumidor é um reflexo do mercado, que é reflexo também da grande mídia que molda muito dos costumes, já ouvir muitas pessoas dizerem que compraram meu livro porque ele estava na lista dos mais vendidos. Eu enxergo que isso é um fator que está colado com a minha carreira, minha projeção, mas que no fim das contas não diz respeito a mim, é algo muito mais revelador da sociedade.

 Em outro conto o “Espiral” você narra que as pessoas costumam dizer, que morar numa favela da Zona Sul do Rio de Janeiro chega a ser uma espécie de privilégio, quando comparado com as favelas de outras regiões. Só que você também aborda que morar numa favela da Zona Sul é estar muito mais perto do abismo entre morro e asfalto, da desigualdade social. Fale um pouco sobre o que é viver numa favela da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Essa colocação não é infundada, muitas pessoas que moram nas favelas da Baixada, da Zona Norte ou Oeste, falam sobre os “privilégios” que os moradores das favelas da Zona Sul tem, como, por exemplo, morar perto do trabalho, porque alguém que mora numa favela da Zona Oeste ou da Baixada, se ela trabalhar em Copacabana, vai demorar 2 horas para chegar e 2 horas para voltar para casa, enquanto alguém mora na Zona Sul vai levar 20 minutos. Isso muda a vida da pessoa, a sua logística e a qualidade de vida.

O outro ponto que eu tento levantar é o contato que se tem com a desigualdade social e o quanto isso oferece de violência psicológica, estar dentro de uma cidade, de um centro e ao mesmo tempo está fora, perto e distante o tempo todo. Eu acho que isso nasce muito de uma inquietação minha, por eu ter nascido em Bangu, que fica na Zona Oeste, e ter me mudado para o Vidigal com 11 anos, uma favela de Zona Sul. Por mais que eu tenha nascido e crescido em Bangu, um lugar que também tinha pessoas com condições de vida melhor que a minha, a gente se encontrava em momentos como aniversário ou jogando bola. Na Zona Sul é tudo muito separado, cada um no seu lugar, a ocupação do espaço é muito bem definida, o que sempre me inquietou e impressionou muito. Eu falo que a primeira pessoa que eu fui conhecer no asfalto na Zona Sul eu já tinha 23 anos de idade, mais de 10 anos morando ao lado de milhares de pessoas sem ter relações com elas, além de ser o filho da empregada ou o funcionário. E o conto “Espiral” fala disso, estar em contato com a desigualdade social tão extrema, oferece um leque de situações de violência psicológica. Ao mesmo tempo em que você estar ali numa realidade que é dura, você estar também perto dos teatros da cidade, do cinema, as possibilidades de desenvolvimento intelectual são infinitamente maiores que em outras regiões. Eu não sei se eu teria me tornado escritor se eu continuasse morando em Bangu, por causa das oportunidades que se abriram por morar no Vidigal e até mesmo para escrever esse conto, que relata não só a minha experiência com a cidade mas que é também de várias pessoas que moram naquela região.

 

Geovani Martins Pedro Bial
Foto: Gshow

 Recentemente você se tornou colunista do jornal O Globo, anteriormente escreveu artigos no próprio jornal e também na Folha de São Paulo. O que o público leitor que te conheceu através do livro, e quer te acompanhar como escritor pode esperar da sua coluna no jornal?

A minha atuação no O Globo e em tudo que eu acabo fazendo, por mais que algumas vezes seja involuntário, é uma afirmação política de ocupar esse espaço, como, por exemplo, quando eu escrevi a resenha do livro de Jessé Andarilho – leia aqui– aí fiquei pensando: eu nascido em Bangu, ele nascido em Antares, que é uma favela de Santa Cruz, que é mais longe do centro que Bangu, a gente em um dos maiores jornais do país, e eu comentando sobre um livro que ele escreveu, pensando em qual seria a possibilidade do meu pai escrever uma resenha sobre o livro escrito pelo pai do Jessé?

Então, é pensar na ocupação e transformação desse espaço, e só de ser colunista do O Globo eu sei que isso é uma afirmação política, que reflete um movimento que estamos vivendo. E, além disso, quem acompanhar pode esperar um aprofundamento na crônica da cidade, vai ler muito o Rio de Janeiro e as questões cariocas, mas não só. A minha primeira coluna eu falo sobre a festa de aniversário do meu sobrinho e esse costume de ter camisa personalizada. E eu acho super político ter um colunista que é um escritor negro, vindo da periferia, que está no jornal falando de algo tão pessoal. Porque na realidade esse tipo de discurso sempre foi negado para gente, quando a gente aparecia no jornal era sempre para comentar a violência ou situações do lugar que você vive.

Eu pretendo dar um trabalho muito literário, sem me fechar para opiniões, apesar das crônicas carregarem as minhas impressões de mundo, entretanto, eu também penso que escrever crônica nesse mundo digital, na era da revolução tecnológica é um paradoxo, pois a crônica surge dessas pequenas coisas que são da cada vez mais ignoradas, podem esperar que eu fale de tudo, mas sempre no campo literário, ficcional e estético, sem me sentir preso ao lugar dos escritores vindo de uma favela.

Geovani Flipelô
Foto: Flipelô 2018

Os direitos autorais do livro “Sol na cabeça” também foi vendido para se tornar uma adaptação ao cinema, qual a expectativa de trabalhar a transformação de um livro de contos em um filme?

Primeiro, é não tentar fazer um filme que seja uma reunião de curtas e que cada história seja paralela, a intenção é de amarrar essas histórias da melhor forma possível sem a obrigação de abraçar todas elas, mas de conseguir sintetiza las. O livro possui uma unidade muito bem definida, mesmo que o filme não der conta de interligar todos os contos, se ele conseguir falar desses temas que percorrem o livro, ele já vai ser bem sucedido no sentido da adaptação.

A minha expectativa é muito boa, por estar em contato com o diretor, o roteirista e por eu realmente ver que eles tem uma preocupação de não fetichizar essas histórias, de trabalha las do jeito mais honesto e subjetivo possível. A preocupação de não cair em clichês é muito grande, eu tive essa preocupação o tempo inteiro, você corre um risco muito grande quando escreve sobre uma coisa que já foi escrita e muitas vezes caricaturada. E por isso estou bem ansioso para vê o resultado disso, dessa coisa nova que nasce a partir do meu trabalho, estou também curioso para saber como trabalharemos a música, a música é uma das prioridades na produção de um filme, as pessoas dizem que se acertar numa trilha sonora eleva o filme para outro patamar. Mas pretendo acompanhar o filme sem dar muita opinião e me meter muito, pois como autor eu tenho compromisso emocional grande com essas histórias e posso atrapalhar mais do que ajudar.

E fico feliz de saber que o diálogo estar aberto, porque se tiver algo que me incomode essa coisa não vai acontecer no filme, o que me dar um alívio muito grande, o maior medo que eu tenho para adaptação é ver o trabalho que eu fiz sendo base para propagar uma ideia que eu não compartilho e sou contra. Não precisa ficar a cópia do livro, mas que carregue essa essência de multiplicidade, de complexidade dos sentimentos que o livro carrega, para não cairmos no estereótipo que o cinema de favela caiu.

 

Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/Salvador*

E -mail:henriquesdo89@gmail.com

Instagram: @henrique_silvadeoliveira@yahoo.com.br

 

 

 

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