Clandestino: 20 anos da viagem latina de Manu Chao

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Rafa Aragão*

O primeiro contato com Clandestino, disco da estreia solo do músico francês Manu Chao, não é facilmente recordável. No entanto, tornou-se inesquecível. Pirei naquelas músicas que eu não sabia, a um primeiro momento decifrar, cheia de loops, samplers, pitadas de salsa, reggae, rap e cantada em mais de uma língua. Clandestino passou a ter cadeira cativa na minha playlist, assim como na de milhares de pessoas que tornaram o disco um sucesso mundial e Mano Chao em um popstar.

Manu Chao, até então, era um ilustre desconhecido para mim. Não sabia naquela época que ele havia feito parte do Mano Negra (nome inspirado de uma organização anarquista da Andaluzia, na Espanha), tampouco conhecia a banda. O grupo classificado como etnopunk era formado por pessoas de diversas nacionalidades e misturava punk, rock, música flamenca e ritmos do Oriente Médio, e chegou a ser o número um da cena alternativa francesa. Em 1992, os membros da Mano Negra, chegam à América do Sul tocando em todo continente. No ano seguinte, reconstroem um trem na Colômbia – o Trem de Gelo e Fogo – e fazem shows gratuitos nas estações por onde passam. Após o lançamento do disco Casa Babylon (1994), o grupo se dissolveria em 1995. Porém, a viagem de Manu Chao pela América Latina continuava.

Com um violão e um estúdio móvel de quatro canais, Manu Chao explorou ao máximo a América Latina e passou a colecionar suas impressões da estrada. Fez parcerias com outros artistas, como no disco Samba Paconé (1996) do Skank, onde participa de duas músicas. Depois de muitas andanças e várias melodias e histórias na bagagem, Manu Chao volta a Europa e junta a Renaud Letang para produzir e mixar Clandestino. O que seria um álbum de forte pegada eletrônica, acabou ficando mais cru, por conta de um defeito no software do laptop de Letang. O disco “acidental” veio a público no dia 6 de outubro de 1998, pela gravadora Virgin. Em um primeiro momento rejeitado pelas rádios, entrou no Top 10 Francês e acabou vendendo cinco milhões de cópias e teve grande aceitação na América do Sul.

A música “Clandestino” continua atual, em ritmo e letra, dialogando com a crise de imigração que é notícia em praticamente todos os grandes veículos da mídia internacional. Quantos não estão “Solo voy con mi pena” pela “grande babylon”? O disco é recheado de outras músicas marcantes, como “Me Gusta Tú” (chegou a ser o tema de um programa de TV argentino), “Lagrima de Oro”, “Desaparecido”, “Mentira” (com um loop interminável de viola), “Je Ne T’aime Plus” (com a sensualidade precisa do sotaque francês). “Minha Galera” cantada em português se tornou o hino de muitas turmas de amigos nas rodinhas de violão e luau.

O grande feito de Clandestino é conseguir combinar bem todas as influências afro latinas, de música, de gírias, de lutas políticas que Manu Chao absorveu em suas viagens. É a trilha sonora da rebeldia pop da época, andarilha, politica, chapada e conectada com o mundo. Chao ficou tão marcado por Clandestino que seu segundo disco “Próxima Estacíon: Esperanza” foi considerado por alguns críticos mais duros como um “autoplágio”. De fato ele nunca conseguiu superar seu álbum de estreia.

A partir do sucesso de Clandestino Manu Chao se tornou porta-voz de diversas lutas, abraçou os sem-terras, os zapatistas e toda luta contra opressão do povo latino americano. Em tempos em que se questiona as diversidades e pluralidades, sejam elas de gênero, raça, religião ou política, Clandestino nos mostra que o caminho é justamente o intercâmbio entre cultura, saberes e pessoas em sua diversidade biocultural.

*Rafa Aragão é jornalista e DJ

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