O que nem uma bala no peito foi capaz de matar

 

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Reprodução: Página do Facebook

Em outubro completou-se um ano da Ocupação Beatriz Nascimento. Um ano de um movimento que nem uma bala no peito foi capaz de matar. Esse ano é o símbolo da resistência de cerca de duas mil famílias que estão prestes a serem enquadradas como terroristas. Retrocedendo na trajetória de famílias desabrigadas e sem condições de enriquecer ainda mais  no capitalismo dos aluguéis, que passarão a ser tratadas como terroristas nacionais.

Durante a fala de uma moradora da ocupação em um palco improvisado na areia dura ,que quando chove se transforma no símbolo real de “movimento pé no barro”, a afirmação na comemoração do aniversário de que dali ela só saia “com a chave na mão”, foi possível perceber que o que move aquelas pessoas é o sonho de ter seu direto básico a moradia digna atendido. Seriam eles os terroristas dos sonhos?

Mas as falas não foram apenas de agradecimento na noite de 01 de novembro, foram de medo também. Pela vida de cada um e cada uma que ali estavam, pela vida de seus filhos e pela vida do movimento. Um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores sem Teto em Sergipe falou sobre o medo ser o parceiro da solidão. O recado era de que enquanto cada morador da ocupação estivesse segurando a mão do seu e da sua camarada, ninguém estaria sozinho ou sozinha, portanto, ninguém deveria sucumbir ao medo.

Criminalizados eles já são por toda uma sociedade que acredita que quem não tem como sobreviver ao mundo capitalista é por escolha, é porque são vagabundos e sustentados pelo Estado. Criminalização essa que parte do olhar daqueles que abaixaram tanto a cabeça para o mundo que só tem olhos para o próprio umbigo. Em 2016 a Lei Antiterrorismo foi sancionada e a nova proposta é que seja “endurecida”, como se a vida dos sem teto do país já não fosse dura demais. Mas, qual o conceito por trás desse endurecimento? Seria a fala daquele que foi eleito afirmando que seus opositores seriam eliminados? Que os vermelhos seriam banidos?

Outra moradora afirmou na comemoração que o vermelho da camisa que vestem significa a cor do sangue daqueles e daquelas que lutam pela vida todos os dias. A fé, representada naquela noite por um Babalorixá, é o que move as famílias para a luta. Ali ninguém é ensinado a desrespeitar ninguém, não se faz apologia a nada que vá ferir os diretos humanos e, principalmente, ali é um espaço de aprendizado ao respeito a dignidade humana. Terrorismo é bradar raivosamente que eles são os que deveriam desaparecer.

A placa da brinquedoteca e da escola de alfabetização dentro dos muros da Beatriz Nascimento também foram pregadas durante as falas. Barracos construídos por muitas mãos para que os moradores possam ter acesso àquilo que lhes são negados. Uma das educadoras populares afirmou de forma contente que o projeto de alfabetização serve para que eles “aprendam a ler as letras porque a vida todos já sabem ler”.

Os ataques nacionais e estaduais (como o pedido de reintegração de posse ainda durante o primeiro turno das eleições deste ano) mostram que aquelas mãos precisam de muitas outras mãos para segurar firme durante o momento tenebroso – e vergonhoso –  que se aproxima. Mas, é certo que muita gente não sabe o que é terrorismo de verdade, se soubessem não diriam que a população invisibilizada socialmente que só sonha em ter seus direitos garantidos são os verdadeiros terroristas. É ainda mais certo que essas famílias vão se proteger e proteger o movimento e, de certa forma, sempre sairão vencedores. “Quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro”.

Vida longa ao MTST Sergipe! Vida longa a Beatriz Nascimento!

Obs.: Esse texto não tem nomes para não colocar mais ninguém e um risco ainda maior. Jornalismo também deve garantir a segurança dos envolvidos mesmo que isso signifique uma matéria pouco confiável e de fontes duvidosas. Mas escolhi proteger pessoas visto que, aprendemos durante as eleições que nenhuma fonte é mais confiável que o tio do zap no grupo da família ou da igreja. Acredite quem quiser, mas eu acredito na luta real aqui relatada. Esse texto é um texto emocional.

Marília Souza Santos (Poço-verdense, feminista e jornalista)

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