O que aprendi sobre as milícias com Marcelo Freixo, por Rodrigo Perez

Marcelo Freixo
Imagem: Instagram de Marcelo Freixo

 

por Rodrigo Perez*

Conheci Marcelo Freixo em 2005. Eu contava 19 anos e cursava o primeiro semestre do curso de história na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Freixo ainda não era Deputado Estadual. Seria eleito um ano depois, iniciando o mandato em 2007.

Freixo era “professor de história e ativista de defesa dos direitos humanos”. Foi assim que divulgaram a palestra, realizada no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. “Direitos Humanos”. Nunca tinha ouvido falar no assunto.

Como a minha curiosidade era do tamanho do mundo, arrumei uma desculpa no trabalhado e brotei lá, pra ouvir Freixo falar. O cabra falou sobre as “mílicias” no Rio de Janeiro, dizendo que eram organizações criminosas que dominavam as comunidades, transformando os moradores em reféns.

Na época, eu morava em uma comunidade, em uma favela, localizada em Anchieta, Zona Norte do Rio de Janeiro, quase Baixada Fluminense. O que Freixo chamava de “mílicias”, eu conhecia como “Polícia Mineira”. Eu acreditava que a Polícia Mineira era algo positivo pra comunidade, pois os caras matavam os bandidos, protegiam os moradores, faziam aquilo que o Estado não era capaz de fazer.

Marcelo Freixo plantou a semente da dúvida em mim. Voltei pra casa com uma pulga atrás da orelha e comecei a observar. Observei que meu pai era obrigado a pagar 10 reais por mês pra “segurança patrimonial”. Na época tinhamos um chevette 78 que dormia na calçada. O carro era velho, o assoalho meio solto. Eu zoava: “essa porra vai cair e nós vamos ter que fazer como os Flintstones, botar o pé no chão e caminhar junto com o carro”.

Aquele Chevete 78, todo fudido, nos transformava numa espécie de elite local. Tínhamos um patrimônio a perder. O carro dormina na rua. Os milicianos sabiam. Por isso, cobravam. Tínhamos que pagar. Pagávamos para nos proteger dos próprios milicanos. Era óbvio. Marcelo Freixo fez ficar óbvio. A semente da dúvida começava a florescer. Observei que o gato net era todo controlado pela milícia. Lembro que no primeiro jogo da copa de 2006 (Brasil X Croácia), a milícia derrubou o sinal, pra obrigar a comunidade a ver o jogo na rua, em um comício de Marcelo Itagiba, miliciano histórico e na época candidato a Deputado Federal. O sinal só voltou depois do jogo. A seleção brasileiria venceu, 1 X 0. Gol do Kaká.

Fui observando, observando. As palavras de Freixo começaram a fazer sentido. Me convenci. Auto-proteção comunitária porra nenhuma! Era crime organizado mesmo. Eram bandidos sitiando um território, fazendo uma comunidade inteira de refém. Marcelo Freixo foi fundamental para minha formação política.

Pouco tempo depois, Marcelo Freixo presidiu na ALERJ a CPI das Milícias, que colocou um monte de miliciano na cadeia. Desde então, ele se tornou um homem marcado pra morrer.

Vieram as eleições de 2012, e Freixo tentou pela primeira vez ser Prefeito do Rio de Janeiro. Me entreguei à campanha. Perdemos.

Em 2016, no calor de outra eleição municipal no Rio de Janeiro, me deixei levar pela implicância que tinha com a militância do PSOL carioca e fiz críticas descabidas a Marcelo Freixo, inclusive na imprensa. Confundi alhos com bugalhos. Chamei Marcelo Freixo de “Frouxo”. Foi uma entre tantas besteiras que já fiz na vida.

Hoje, depois de dois anos morando em Salvador e afastado daquela militância psolista que tanto me irritava, percebo que errei. De Frouxo, Freixo não tem nada. Um homem corajoso, professor de história, assim como eu, que decidiu comprar uma briga que colocou sua vida em risco, a vida de seus filhos e amigos em risco. Freixo desafiou os inimigos do povo, da população pobre.

Freixo desafiou uma gente violenta, da pior espécie. Essas pessoas mataram Marielle Franco. Todos nós, que sonhamos com um mundo melhor, morremos junto com Marielle. Essa gente quer matar Marcelo Freixo. Se isso acontecer, morreremos outra vez. E assim, vamos morrendo aos poucos, junto com os nossos. Não pode acontecer. Não pode.

Vida longa a Marcelo Freixo. Precisamos muito dele, muito mesmo.

 

*Rodrigo Perez Oliveira é doutor em História Social pela UFRJ e professor adjunto de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, atuando na graduação e na pós-graduação. Rodrigo Perez é autor do livro “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército Brasileiro (1881-1901)”, publicado em 2013, pela editora Multifoco, e organizador do livro “Conversas sobre o Brasil: ensaios de crítica histórica”, publicado em 2017, pela editora Autografia. Os interesses de pesquisa do autor estão concentrados nas relações entre a epistemologia histórica e a história política, sendo sua especialidade a história da historiografia e do pensamento político brasileiros. Atualmente, Rodrigo Perez vem desenvolvendo pesquisas sobre a historiografia brasileira produzida nos anos da redemocratização e sobre a experiência de crise institucional que desestabiliza a cena política brasileira desde 2013

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