A polêmica com Igor Kannário tem o objetivo de retirar seu público do carnaval

Tacio MoreiraMetroPress
TacioMoreira/Metropress

“É no respeito e no limite, a favela tá avisando para não ter disse me disse” (Disse me disse, Igor Kannário)

Henrique Oliveira*

Depois de colecionar alguns atritos com a Polícia Militar da Bahia, passando por duas prisões por porte de maconha, e uma discussão com uma policial feminina na Micareta de Feira de Santana, que lhe rendeu um indiciamento por desacato. O cantor de pagode e deputado federal Igor Kannário, resolveu nesse carnaval de 2019, fazer uma ação de marketing e saiu fantasiado de “policial do futuro”, uma fantasia que parecia inspirada no grupo norte americano Village People.

Segundo o cantor, a fantasia de policial foi escolhida para homenagear a Polícia Militar, quando um cordão de policiais passou pelo seu trio elétrico, Igor Kannário pediu para que os policiais fossem aplaudidos e disse “vim vestido de PM do futuro para homenagear esses guerreiros, porque eles também querem paz. Vamos aplaudir porque eles estão trabalhando.” E imbuído de apaziguar a sua relação com a PM, Igor Kannário chegou a pedir a prisão de um folião que estava brigando no meio do público.

No entanto, isso não foi suficiente para afastar o cantor das polêmicas carnavalescas, isso porque na fantasia de Igor Kannário, estava escrito “Comando da Paz”, o que abriu brecha para criminalização por setores da imprensa e da Polícia, que começaram a especular que o cantor estava fazendo apologia a uma facção, que atua no tráfico de drogas em Salvador e na Região Metropolitana com o mesmo nome. O primeiro jornal a veicular que Igor Kannário estaria estampando o nome de uma facção foi o jornal online Bahia.ba, ainda na madrugada do dia 02. Após isso, os outros jornais começaram a reproduzir a polêmica/acusação durante o dia.

Ainda na madrugada foi o jornal Bahia.ba, que deu repercussão ao deputado estadual Capitão Alden (PSL), que postou um vídeo no seu perfil do instagram, acusando Igor Kannário de está fazendo apologia ao crime, quando se definiu como comandante do “Comando da Paz”, que acionaria o Ministério Público e encaminharia a Câmara dos Deputados uma denúncia ao Conselho de Ética, para que fosse julgada a sua conduta desafiadora a moral e os bons costumes(sic). Capitão Alden (PSL) é um oficial da Polícia Militar, que em 2015 apareceu na imprensa ao lançar a “Cartilha de Orientação ao Policial”, que relaciona 36 tipos de tatuagens a crimes específicos.

Segundo Alden, o objetivo da “Cartilha da tatuagem do crime”, como ficou conhecida, não é discriminar as pessoas pelos desenhos, mas sim, permitir que o policial consulte a ferramenta e cruze outros dados, para poder perceber que o desenho mostra indícios de um criminoso. Porém, na vida real não é isso que acontece. No estado de São Paulo em 2016, a Corregedoria da PM abriu um inquérito para investigar um policial militar, que divulgou em grupos de whatsapp, duas fotos dele usando uma máscara de palhaço ameaçando um jovem negro, com a seguinte legenda: “Tem tatuagem de palhaço, mas quando vê um na frente fica com medo.” Uma clara referência a uma suposta relação entre a tatuagem de palhaço e acusados de envolvimento com assassinato de policiais, que consta na cartilha.

A “Cartilha da tatuagem” na prática se torna um instrumento de etiquetamento social, que permite racializar a identificação criminal, na qual jovens negros com desenhos de palhaço, coringa, escorpião, caveira, carpa e etc, em bairros periféricos serão acusados de serem traficantes ou ladrões. Enquanto em corpos brancos de jovens da classe média será um mero desenho. O que dar significado não é o desenho, mas sim quem porta ele.

E não a toa, a frase “Comando da Paz” foi associada com a apologia ao crime, por justamente está numa fantasia de Igor Kannário, que é conhecido por ser usuário de maconha e se auto intitular o “Príncipe do gueto”. É inegável que o surgimento dos grupos responsáveis pelo tráfico de drogas nos últimos anos, levou ao processo de apropriação de alguns símbolos e códigos sociais já estabelecidos, principalmente nas periferias de Salvador. Entretanto, se Xandy do Harmonia do Samba, ou Léo Santana, estivessem vestindo uma camisa com estampa de caveira, estariam fazendo apologia ao crime organizado? Ou será que Igor Kannário é o único cantor usuário de maconha da música baiana?

Em 2015, a publicitária Luciane Reis escreveu o texto “Por que Igor Kannário não é bem vindo no carnaval de Salvador”, quando tentaram barrar que o cantor saísse no carnaval por causa da violência causada pelo seu público. O perigo na verdade não estaria nas brigas, mas sim na capacidade que Igor Kannário tem de mobilizar a periferia no papel de protagonista no palco das ruas, a mesma periferia que é esquecida pelos gestores públicos nos outros dias do ano. O carnaval de Salvador até aceita apresentar a cultura negra, só que não aceita que jovens negros sejam os principais sujeitos, os lugares que eles querem os negros é segurando as cordas dos blocos e vendendo cerveja em condição subhumana, para repassar lucro ao monopólio da marca patrocinadora.

Igor Kannário e o apadrinhamento político de ACM Neto

Desde a intervenção direta do prefeito ACM Neto em 2015, que garantiu que Igor Kannário desfilasse no carnaval do referido ano, o cantor entrou para a vida política e se tornou um apadrinhado do prefeito. No ano seguinte, Igor Kannário se candidatou vereador pelo PHS, campanha na qual ACM Neto participou pessoalmente como cabo eleitoral. Em sua legislatura como vereador, depois de receber 11 mil votos, Igor Kannário conseguiu aprovar 10 projetos, entre eles um que garante a aquisição de livros didáticos às escolas municipais, com enfoque no papel social dos negros e na cultura afro brasileira. Outro que solicita a implementação de campanha, para esclarecer a população da possibilidade de contribuir ao Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

No ano passado, Igor Kannário foi eleito deputado federal, com mais de 50 mil votos, mas só conseguiu a cadeira na Câmara dos Deputados, por causa da votação expressiva de Dayane Pimentel (PSL), que levou também na coligação o pastor Abílio, que teve 47 mil votos. Igor Kannário e Dayane Pimentel são figuras totalmente opostas, enquanto Dayane se diz conservadora, Igor Kannário defende a legalização da maconha e é crítico da violência policial. Dayane disse que se depender dela, todas as bandeiras do cantor/deputado serão derrubadas pelas leis que ela pretende criar e votar. A deputada que quase foi vice candidata na chapa de Jair Bolsonaro, se define como representante da ordem, policiais, igreja, o progresso, e que luta contra todos que pensam o contrário. Inclusive, Igor Kannário deve se filiar ao “Democratas”, partido que ACM Neto é presidente nacional.

Kannário e ACM Neto
Reprodução da internet

Em nota enviada a imprensa pela sua assessoria, Igor Kannário disse que o uso da frase “Comando da Paz” não passou de uma infeliz coincidência, que o seu intuito era apenas pregar a paz entre o povo e homenagear a PM. Ao ser questionado sobre a acusação de apologia ao crime que pairava sobre Igor Kannário, o prefeito ACM Neto disse que as críticas eram uma hipocrisia absurda. Aproveitando a relação de apadrinhamento que construiu com ACM Neto, Igor Kannário criticou a ação da Guarda Municipal, quando passava pelo circuito do Campo Grande, na segunda feira. O cantor disse em cima do trio elétrico, que o prefeito deveria olhar o comportamento dos guardas, chama los na “chincha” e enquadra los. Segundo Igor Kannário, o “prefeito é tudo nosso”.

Segundo ACM Neto, a PM se ausentou de fazer a segurança durante a passagem da pipoca de Igor Kannário pelo Campo Grande. O deputado estadual Capitão Alden (PSL) perguntou até quando ACM Neto iria proteger Igor Kannário, que na visão dele, lidera “um movimento marginal e desrespeitoso aos agentes de segurança pública”. A afirmação de ACM Neto, sobre a falta de PM na pipoca de Igor Kannário foi rebatida pelo coronel Humberto Sturaro, ao dizer que a PM acompanhou a passagem do trio por tropas especializadas, coordenadas pela SSP e o Comando Geral, ainda reforçou que Igor Kannário não respeita a corporação, ofende a honra e a dignidade da mesma.

A grande questão é que a violência no carnaval de Salvador vem diminuindo ano após ano, agora em 2019 foram registrados 117 casos de lesão corporal leve e 12 casos de lesão corporal grave. Até o antepenúltimo dia de folia, a Secretaria Municipal de Saúde registrou uma redução de 22% nas intervenções em traumas no rosto provenientes de agressões, comparado ao mesmo período no ano passado. 11 pessoas foram baleadas e 5 armas de fogo apreendidas, nenhuma dessas situações ocorreram na passagem do trio de Igor Kannário. O comandante geral da Polícia Militar, Anselmo Brandão, relevou a imprensa que para o carnaval de 2020 pretende diminuir o número de policiais circulando nas ruas e aumentar o número de policiais em pontos de observação. Ainda afirmou que esse foi o carnaval mais tranquilo e com menos brigas. Mas por que toda queixa sobre violência se concentra no público de Igor Kannário?

Igor Kannário é uma figura controversa em todos os sentidos, se intitulou o “príncipe do gueto”, nunca se declarou negro e muito menos branco, o silêncio dele sobre a sua identificação étnico racial é algo intrigante, porém, sempre reivindicou uma identidade social e cultural de favela, agindo como protetor e representante da juventude negra. Ao mesmo tempo, que ele para o seu trio elétrico na frente do Camarote 222, para dizer que os brancos que ali estavam, mereciam respeito tanto quanto o seu público negro na pipoca, Igor Kannário é um aliado político desses mesmos brancos, representado na figura de ACM Neto.

Igor Kannário conseguiu se tornar referência artística e política para a juventude negra de Salvador, que há muito anos sofre com a “cultura do cassetete policial” no carnaval, quando ele de cima do trio, exige respeito dos policiais com o seu público, não aceitando agressão gratuita, Igor Kannário constrói uma imagem de alguém que consegue impor um limite a ação policial. A juventude negra que não se sente amparada por outras autoridades públicas por causa do racismo e da criminalização da pobreza, encontra em Igor Kannário, legitimidade não só pela proteção, mas por se identificar com os códigos, símbolos estéticos e musicais. As autoridades de segurança pública disputam com Igor Kannário, quem deve controlar a massa de pessoas negras, que são no cotidiano da cidade de Salvador, enquadradas como suspeitas e perigosas pelo aparelho policial. O que a PM chama de desrespeito, trata se na verdade da reivindicação de uma “cidadania carnavalesca”, de que pelo menos naquele momento da festa a carne negra não é a mais barata do mercado.

Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/Salvador

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