O Reino Kongo-Angola pelos olhares de uma mulher negra brasileira: contando sobre os Kilombos de lá para os Quilombos de cá

*por Yérsia Souza de Assis

Entrevistei Mille/Makyesi num dia quente em Luanda, na Ilha do Cabo, já era começo de noite, mas como o Cacimbo já terminou, os dias são quentes. Fizemos essa entrevista, tendo o Atlântico como horizonte de um lado, e a Baía (Marginal de Luanda) do outro, um belo e contemplativo cenário. Tínhamos almoçado juntas, e estávamos um pouco cansadas. Pois, naquela segunda-feira, tínhamos – tanto ela, como eu – ido resolver questões ligadas à nossa condição de estrangeiras em Angola. Embora, isso não tenha interferido no tom franco e afetuoso que orbitou nessa conversa/entrevista de duas mulheres negras brasileiras que estão em pleno processo de compreensão sobre Angola, e sobre quais Angolas habitam ou podem habitar no Brasil.

Yérsia – Mille, seu nome é Mille Fernandes. Nós sabemos que você é uma pesquisadora do Brasil, do Estado da Bahia. Hoje, você desenvolve atividades de pesquisa aqui em Angola, e nós gostaríamos de saber, para quem lê a Revista Rever como é que se deu esse processo. Conta um pouco da sua trajetória para gente, conta um pouco do que você tem feito aqui em Angola.

Mille – Obrigada pela oportunidade em conceder a entrevista. Como você mesma falou, meu nome é Mille Caroline Rodrigues Fernandes, aqui em Angola, eu fui rebatizada por Makyesi. A minha bisavó foi levada para o Brasil como escravizada, e eu voltei para buscar essa minha ancestralidade. Eu sou mukongo, estou tentando descobrir de onde precisamente a minha bisavó foi retirada, mas o que me traz aqui, além dessa minha busca pela ancestralidade é que eu comecei a fazer uma pesquisa desde meu processo de graduação sobre comunidades quilombolas.

Bem antes da graduação, na verdade,  fui convidada pela secretaria de Igualdade Racial lá no meu Estado, Estado da Bahia,  para fazer o mapeamento das comunidades quilombolas, que ainda não estavam catalogadas, a intenção era organizar as diretrizes curriculares para educação quilombola do Estado da Bahia, que depois acabou dando régua e compasso para as diretrizes curriculares da educação quilombola de forma nacional. Nós tínhamos os grupos de trabalho, eu compunha um grupo que fazia o mapeamento das comunidades, e a mim, cabia a responsabilidade em fazer o relatório.

Eu, Carlos Eduardo Carvalho de Santana, o Isaac, um grupo bem grande, fora as questões que eram diretamente das diretrizes curriculares, o que cabia pensar e organizar a educação. Pelos levantamentos que eu comecei a fazer, eu ia percebendo que algumas comunidades quilombolas não tinham professores quilombolas que davam aulas nas escolas quilombolas; a maioria dos professores vinham de fora da comunidade, e para nossa grande tristeza a maioria dos professores eram professores “castigados”, vou usar aqui entre aspas. Castigados pelo o governo do município onde ficavam essas comunidades. Porquê quando esses professores que trabalhavam na cidade votassem contra o prefeito na época, eles colocavam na zona rural, nos quilombos, ou nos lugares mais recônditos como uma forma de “castigo”, porque não votou no partido dele.

Eu fui percebendo de uma forma muito forte, professores que não percebiam as realidades das crianças quilombolas, professores que não sabiam nem o que era quilombo. Mas acabavam reproduzindo o currículo da escola da cidade dentro dos espaços do quilombo. Matando essas comunidades, porque elas acabavam reproduzindo aquele discurso do quilombo como o lugar do negro fugido, do negro vadio, do negro que não presta. Então, as crianças acabavam não tendo uma identidade positiva do que é ser negro, do que é ser quilombola.

Quando eu começo a fazer a minha graduação, eu tinha um contato muito grande com o Ilê Aiyê, e a minha vontade era escrever alguma coisa sobre as atividades que o Ilê Aiyê fazia em Salvador. Uma paixão grande, embora nunca tenha saído no bloco, ficava só admirando, vendo as atividades que eles faziam, oficinas de arte. Então eu pensei em trazer alguma coisa nesse sentido para discutir na minha graduação, mas minha professora de Metodologia na faculdade me disse que trabalho de graduação não podia ser trabalho de campo, só bibliográfico, e eu fiquei muito chateada porque eu já estava com o projeto todo organizadinho, todo montado. Mas, ancestralidade sabe tudo, né? E nesse movimento, eu acabo largando o projeto lá. Fiquei chateada, porque já estava no quinto semestre do curso de Pedagogia, mas fui convidada para uma festa numa comunidade quilombola do Baixo Sul.

Eu sou de Nazaré (Recôncavo Baiano), e fazia Pedagogia em Valença,  fui convidada para uma festa em Boitaraca, na cidade de Nilo Peçanha. Quando eu botei os pés na comunidade, a sensação era que eu estava voltando para casa, eu só fazia chorar, não sabia dizer! Assim, descrever o que era esse sentimento, e as pessoas vinham, me abraçavam, as pessoas que me levaram diziam assim: “Poxa, você foi muito bem recebida, porque as pessoas aqui são muito cismadas com quem chega, para se abrir assim é muito difícil, mas também você é uma pessoa fácil de lidar”, e ficaram brincando comigo. Mas era um sentimento muito forte, um sentimento de pertença, de fazer parte daquele local. E é esse sentimento de pertença que me trouxe para Angola, na busca pela essência de formação deste quilombo, é o que me movimenta.

Então, eu começo a frequentar a comunidade a partir das festas, a observar o cotidiano da população. Cada comunidade tem uma escola, e para minha felicidade, na escola de Boitaraca quem dá aula é uma professora que é filha da comunidade, né! Na época que ela estudou não teve essa possibilidade de ter alguém da comunidade ensinando para ela, os professores vinham de fora, que era a realidade dos outros quilombos. Mas, Arlete faz um trabalho bem bacana com as crianças, e os mais velhos transitavam no espaço da escola, levando seus conhecimentos, contavam histórias, faziam parte do projeto político pedagógico da escola, e aquilo ali, eu fiquei imaginando: “Poxa, como é que funciona esse currículo, uma vez que a gente sabe que o currículo é muito fechado, não se abre para pensar memória, oralidade, as nossas tradições de uma forma geral”.

Dentro da escola de Boitaraca, o trabalho era fantástico,  e ai eu começo a investigar, foi minha pesquisa de graduação, as coisas foram acontecendo, e a ancestralidade sempre foi me guiando. E na finalização da pesquisa de graduação, eu sentada na porta da escola, uma das crianças que estudou na escola de Boitaraca, que já estava estudando na cidade de Nilo Peçanha, senta ao meu lado, me pede uma folha de papel, eu dou para ela uma folha e ela começa a fazer um desenho: faz uma árvore, faz um senhor debaixo da árvore com, tipo, um pandeiro nas mãos, desenha também ela e mais dois primos ao redor da árvore. E eu pergunto: “Quem são?” Ela vai e descreve, me mostra onde fica a árvore que ela desenhou, e é árvore que os mais velhos levam as crianças para contar as histórias à noite, fazem cerão, armam a fogueira. E aí, eu pergunto: “sente saudades da escola do quilombo?” Aí ela faz uma declaração: dizendo que tinha muitas saudades da escola do quilombo. A professora da cidade nem sabia que ela era quilombola; falava das questões do que é ser quilombo, da resistência da escola daquele local,  e a dor que ela sentia ao ter ido para escola da cidade, porque o corpo dela estava marcado por uma discriminação muito forte, desde quando ela entrava no ônibus, porque as crianças a maltratavam.

O ônibus que entra na comunidade passa por uma outra comunidade que não é quilombola, essas crianças entram no ônibus, sentam nas cadeiras da frente, e nas cadeiras que restam no fundo do ônibus, que poderiam ser utilizadas pelas crianças quilombolas puderem sentar, as crianças da comunidade não-quilombola, colocam mochilas, cadernos, evitando que as crianças quilombolas sentassem, e se alguém tirasse o caderno ou mochila, elas apedrejavam, chamavam de macaco, e essa foi uma realidade muito dolorosa; eu ia dentro do ônibus, ia observando o contexto. Porque as crianças quilombolas me falavam, mas eu precisava vivenciar isso, e entender essa dinâmica, porque as crianças que iam no ônibus também eram negras, eu começo a observar que havia um problema ali. Vieram várias coisas na cabeça, que deram régua e compasso para pensar minha pesquisa de mestrado.

Eu comecei a me interrogar: “como é que crianças negras discriminam outras crianças negras, como é que pode?” E como eu estava tão fascinada com a forma de educar no quilombo, e já vinha acompanhando a luta da posse da terra e as atividades pedagógicas que a professora fazia, eu só conseguia pensar na saída dessas crianças quilombolas para a escola da cidade, mas aí quando a gente começa a pesquisa de campo, a frequentar a escola da cidade, que foi o próximo passo da pesquisa, quando começamos de fato a fazer essa investigação mais profunda, você vai começando a perceber as dinâmicas. A minha pesquisa vai no sentido de perceber “o olhar dos de dentro sobre os de fora”, isto é, dos quilombolas sobre quem está fora do quilombo, bem como “o olhar dos de fora sobre os quilombolas”. No espaço da escola, eu também vou percebendo como é o comportamento das professoras, em sua maioria: mulheres, negras, que também tiveram seus corpos marcados por uma educação altamente racista, eu perguntava as crianças quilombolas: “mas, porque você não conversa com a coordenação? Com a professora ?  Ou até mesmo com a direção da escola para ver se eles conseguem resolver essa situação? – Professora, eles não resolvem! Com a professora a gente sempre fala.”

Um dia desses um aluno – isso na época, né? – Um aluno me chamou de macaco, e eu falei com a professora, e a professora me disse: “ô filha, você é macaco? Não, não sou. Então, se você não é macaca deixa para lá, sua colega está brincando”. Isso foi me deixando muito preocupada, e assim, com raiva, eu não vou negar, eu fiquei com muita raiva. Poxa, eu ficava me perguntando: uma mulher adulta, como é que ela deixa, permite estes tipos de comportamentos dos alunos da cidade com os alunos do quilombo e tal. Mas aí eu fui analisando: “Não, eu também sou mulher, negra, professora, também tive meu corpo marcado por uma educação altamente racista, tem um problema aí”.

Não estou querendo justificar a falha delas em não conseguir fazer uma discussão crítica sobre racismo, discriminação, mas compreender o que o racismo faz com os nossos corpos, com as nossas mentes. E neste processo todo da pesquisa, eu vou começando a perceber todo o artifício de escolarização que essas professoras passaram, os sofrimentos que elas tiveram no corpo, o porquê que elas silenciavam na hora que um aluno pedia socorro em relação a estes xingamentos, apelidos e desrespeitos.

Vou começando a perceber, abro roda de conversa com elas, faço uma escuta sensível com relação a essa situação, no coletivo, depois faço no individual. Depois, organizo grupos focais de formação docente, e vou entendendo que a minha pesquisa pode partir para uma ação, como uma ação de formar, capacitar esses professores que em sua maioria nem sabia onde ficava o Egito, e a importância da população negra para aquela região. O que era o quilombo, o município de Nilo Peçanha – não que nos outros municípios da Bahia não tenha, mas Recôncavo e Baixo Sul da Bahia é muito forte no que se refere a descendência africana. Nilo Peçanha, em especial, tem um grupo de dança que se chama: “Zambiapunga/Zambiapungo”, que significa na escrita da língua em KikongoNzambi a Pungo”. Aqui em Angola, a gente sabe que “Nzambi a Pungo” é Deus Supremo/Todo Poderoso. Eu começo a fazer uns interlinks para compreender esse processo: Nzambi, Kalunga, Wiza, Kwenda, palavras em Kimbundo e Kikongo. Vou percebendo as ligações entre o Quilombo de Boitaraca e o espaço Kongo/Angola, e é o que me traz aqui. Tentar compreender essa essência de formação dos quilombos do Baixo Sul da Bahia, que em sua maioria tem descendência Kongo/Angola. A gente sabe que o Estado da Bahia teve uma influência muito grande dos grupos étnicos de África, mas a força maior é Kongo/Angola.

Professora Mille Fernandes

Yérsia – Professora, você está aqui desde quando?

Mille – Eu cheguei a Angola em 23 de outubro de 2018.

Yérsia – Então, tem quase um ano que você está habitando Angola, certo? Entramos na segunda questão. Conte um pouco das atividades que você vem desenvolvendo, não só em Luanda, mas também em várias Províncias de Angola, pelo fato da sua pesquisa abranger várias Províncias.

Mille – Então, com esse levantamento desde o Mestrado, eu vou percebendo essas correlações. A minha pesquisa hoje é para compreender a essência, como eu falei, da formação dos quilombos. Quando eu cheguei aqui era um projeto com cinco Províncias, que seriam cinco Estados. Seria: Cabinda; Mbanza Kongo; Uíge; Malanje e Benguela. Eu acabo ampliando porque eu vou estudar todos os municípios que compunham os antigos reinos Kongo, Ndongo e Matamba. Nesse movimento eu tenho desenvolvido algumas atividades para compreender a influência dessa população com o grupo étnico Bakongo e do grupo étnico Ambundo no Brasil. Tentando também organizar atividades como Colóquios, Seminários, Formações Docentes. Eu estou num movimento agora de tentar organizar um convênio entre a Universidade do Estado da Bahia. Eu fui professora substituta lá durante quatro anos, mas ainda tenho boas relações com a Instituição do Estado da Bahia lá no município de Valença, até porque a minha pesquisa vai voltar para dá uma grande contribuição. Então, estamos nesse processo de tentar fazer um convênio com o ISCED aqui em Luanda.

Yérsia – ISCED significa?

Mille – Instituto Superior de Ciências da Educação. Recentemente, nós fizemos o primeiro Colóquio Internacional, que aconteceu entre os dias 3 e 4 de outubro. Ainda durante esta semana nós fizemos uma Roda de Conversa, esse tipo de roda de conversa começou no Estado da Bahia, o qual chamamos de “Giro Decolonial”. Fizemos o primeiro giro na UNEB em Valença, o segundo giro na UNEB de Salvador, o terceiro na UFRB em Amargosa, o quarto giro nós fizemos na Argentina, em Mar Del Plata, e o quinto giro aqui em Luanda. Foi bem bacana, nós contamos com a presença de muitos pesquisadores de diversas áreas que abarcam várias temáticas voltadas a pensar o continente africano, a história e a cultura do povo negro na Diáspora.

Contamos com a participação das professoras brasileiras Fabiana Lima, Katiuscia Ribeiro, Mariana Meireles, Maicelma Maia, Yérsia Assis e da antropóloga angolana Teresa Aço. Nesse quinto Giro Decolonial, a gente discutiu sobre a descolonização do currículo oficial de ensino, cada uma vindo de uma perspectiva, de uma área das Ciências Humanas. Puderam contribuir bastante numa turma do segundo ano do curso de Línguas e Literaturas Africanas do Departamento de Línguas do ISCED. Foi bem interessante, nós começamos as 9:30 da manhã e terminamos as 15 horas da tarde, sem intervalo. Os alunos ávidos por sabedoria, por conhecimento. Foi muito bacana. E penso que este é o caminho mesmo, nós temos que começar a fazer estes movimentos para desconstruir o que o colono trouxe como verdade.

E também, nos fortalecer, porque eu sou brasileira e sei sobre a situação que nós estamos vivenciando no nosso país. E esse é o momento de constituirmos redes, fortalecermos nossos laços de pesquisa, de vida! Porque tem coisas que não cabem no Lattes, né?! Essas relações afetivas, de fortalecimento, principalmente da mulher negra, não cabem no Lattes.

Uma das atividades organizadas pela professora Mille em Angola

Yérsia – Professora, conta para nós como é fazer pesquisa nas Províncias de Angola.

Mille – Nzambi …

Yérsia – Atualmente sua pesquisa faz o percurso em onze Províncias de Angola. A sua pesquisa, inclusive, adentra municípios dessas Províncias, indo para além de suas capitais. Acessando assim, lugares mais distantes, o que é comumente dito aqui, um contato com uma ‘Angola profunda’. Fala um pouco sobre o seu percurso e as dificuldades encontradas.

Mille – Exato. A Angola da ‘terra a terra’.  Então, a dificuldade maior que eu tenho nesse processo. Eu sou bolsista, eu não falei isso logo no início, sou bolsista PDSE da Capes, no Brasil. A bolsa ela não tem como comtemplar essa pesquisa tão profunda. Então cada Província que eu vou, sou recebida por uma família, é uma família que me abraça. Eu tenho uma família imensa agora em Angola. E os meus gastos nessa minha ida é mais de transporte, porque a alimentação e a hospedagem que seria o mais pesado eu já tenho as famílias que me recebem. E o pior de tudo é chegar nesses lugares mais recônditos, porque tem esses espaços que não tem estrada, é picada, como se fala aqui em Angola.

Para esses locais, para esse tipo de Picada teria que ter um carro com tração, tipo Land Cruiser, e o aluguel de um carro desse é muito caro. Geralmente eu quando vou para as aldeias, faço esses trajetos de motorizada. Em Malanje, o trabalho correu muito bem porque eu consegui ter um acesso maior, entrei em contato com o governador, ele me recebeu, foi super solicito. Disponibilizou um carro para me levar até Marimba, local onde fica o Reinado do Rei Kabombo, da linhagem do Ngola Kiluanje, da Rainha Nzinga. Disponibilizou motorista, além de um segurança para ir acompanhando, uma vez que eu sou estrangeira e estava lá. O governador se sentiu responsável pela minha estadia, ainda mais indo para lugares bem complicados. Mas em outras situações, é muito complicado mesmo, eu fui a Comuna do Kimaria, no município do Mbembe, Província do Uíge, e fui de motorizada, duas horas e meia para ir, duas horas e meia para voltar. Eu não tinha pernas, eu cheguei na Comuna, sai da moto e cai no chão porque eu não sentia minhas pernas.

Tem sido bem difícil neste aspecto para acessar os lugares distantes. Eu enviei uma carta para o Ministério da Cultura daqui de Angola, ainda estou aguardando uma audiência para tentar solicitar da Ministra essa possibilidade de uma ajuda mesmo, de um apoio com a questão do transporte para ter acesso aos sítios de difícil acesso. Fora isso, tem sido uma experiência maravilhosa. Quando eu cheguei a Luanda, cheguei com aquela sensação, não vou dizer que cheguei aqui romantizando como as pessoas dizem, eu sabia da realidade que eu poderia enfrentar. Mas, eu achei que eu fosse encontrar uma África daquela África que eu imaginava lá na Bahia, que a gente mantém viva os costumes através dos terreiros, que a gente consegue visualizar dentro dos espaços dos quilombos.

Então, eu cheguei aqui imaginando uma coisa e aos poucos fui percebendo que a África estava em mim, e não tanto nas pessoas em Luanda. Luanda, como todas as capitais que foram colonizadas pelos portugueses não conseguiu preservar essa cultura, eu não estou procurando purismo também, porque purismo não existe, mas ter um contato maior. E são nas aldeias, nas outras Províncias, nos lugares mais recônditos que eu vejo o tratamento com a folha, a utilização da Pemba, a conversa do mais velho no Kikongo ou  no Kimbundo, aquele Kikongo e aquele Kimbundo bem raiz, que você não consegue nem compreender direito, e que até mesmo alguém da aldeia que vai traduzir não consegue compreender, mas faz a releitura daquela fala, daquela tradução. O colono nos impossibilitou de falarmos as línguas nacionais, de manter viva esta cultura na capital.

Então, eu tenho vivenciado dias felizes com a pesquisa, e acreditando assim que essa pesquisa pode dá frutos e trazer uma transformação importante para minha área que é a área da Educação. Acredito que é através da Educação que a gente vai conseguir mudar muita coisa nos nossos países, refiro-me aqui ao Brasil-Angola. Então, é isso, a minha maior dificuldade é o acesso a essas localidades, porque fica muito distante, muito distante…

Yérsia – Um ano praticamente vivendo em Angola, não só em Luanda, e disso o que você consegue perceber das continuidades, aproximações de Angola/África com esse Brasil Negro, esse Brasil Afro-Brasileiro, Afro-Baiano. O que pode aproximar e o que pode afastar?

Mille – Olha, eu não posso falar de Brasil como um todo. Mas eu posso falar do meu Estado, o Estado da Bahia tem uma ligação muito forte com Angola. Eu cheguei aqui e minha mãe perguntava: e a comida? E as pessoas? E o clima? Não vejo diferença, eu estou em casa, eu voltei para casa. E isso, às vezes me assusta, porque eu já estou num processo de não querer voltar para Bahia, minha casa, onde eu nasci. Então, é uma relação muito bacana. Você olha para as pessoas. Poxa, eu chego nas províncias, as famílias que me recebem são muito parecidas com minha tia, com meu primo, sabe? Eu estou em casa! Não vejo diferença! Final de semana está todo mundo reunido em casa para comer, para contar como foi a semana, são as mesmas práticas que nós fazemos lá na Bahia… essa herança é daqui, né?! Essa herança foi levada daqui para lá.

Yérsia – E na Educação que sua área de pesquisa e campo de atuação? Como você percebe contribuições na área da Educação entre Angola e o Brasil.

Mille – Na perspectiva que eu tenho pesquisado, a intenção é trazer esse movimento da História que não foi contada para constituir um material pedagógico para ser trabalhado nas escolas do Brasil. Mas eu percebo também, que esse material vai ser importante para Angola. Porque a História do povo angolano, se conhece a partir da história das lutas armadas. Quando se fala do Reino Kongo, Ndongo e Matamba fica mais na perspectiva do mito, da criação ou da (re)invenção, do que pode ser e do que pode não ser. E isso deixa muito a História da população angolana solta, como se eles não tivessem tido um passado antes da chegada do colonizador branco. Penso que essa pesquisa vai dá uma grande contribuição, tanto para aqui, para os/as jovens angolano/as começarem a valorizar suas raízes, voltar a falar as línguas nacionais, não ter vergonha. Porque o colonizador acabou dividindo a gente, e impondo o olhar dele sobre nós, e em dizer que as línguas nacionais era a língua do cão. Então, será uma forma dos/as jovens angolanos/as poderem reviver essa História e fortalecer sua identidade mesmo.

Yérsia – Para finalizar, professora Mille explica para nós como foi o seu rebatismo, contando o significado do seu nome Makyesi.

Mille – Para o povo africano, o nome tem que corresponder a algo da sociedade. O nome representa quem é você para sociedade, ou o que você vai ser para sociedade, de que forma você vai contribuir para sociedade. Então, seu nome vai muito nessa perspectiva. Quando os mais velhos me perguntaram, os mais velhos em Mbanza Kongo me perguntaram: Quem é você? Eu entendi a pergunta como se eles estivessem me perguntando meu nome. Então, eu disse: Meu nome é Mille Fernandes. Eles disseram: Não, quem é você para sociedade? O que você significa para sociedade? Eu disse: Não sei, eu não sei. Aí um mais velho disse: “Nós vamos lhe batizar”, escolha: “Nzola” ou “Makyesi”. “Nzola” quer dizer amor e “Makyesi” é felicidade, aí eu ri. Quando eu gargalhei, o mais velho gritou: “Makyesi!” Pronto. Makyesi é felicidade. Eu acho que coube muito bem em mim.

Yérsia – Muito obrigada professora Makyesi.

*Yérsia é preta nagô, neta de Zé Paizinho, neta de uma Rendeira, filha de Professora, Ekédjí no Ilê Axé Omin Mafé. Doutoranda em Antropologia pela UFSC/NUER. 

 

 

 

 

 

5 comentários sobre “O Reino Kongo-Angola pelos olhares de uma mulher negra brasileira: contando sobre os Kilombos de lá para os Quilombos de cá

  1. A entrevista realizada com Mille/Makyesi é um divisor de aguas. O que sabemos, efetivamente, dos vinculos Brasil- Angola? Trabalho com o conceito de “escavações epistemologicas” e analiso os movimentos de pesquisador@s como esse, em plena ebulição. Ao ver de perto a entrevistadora e entrevistada, atuando e intervindo na formação de jovens universitários, tive certeza que são essas as possibilidades de compreensão das “investigações expedicionarias”.

  2. Parabéns, Mille/Makyesi! Sinto-me orgulhosa por você nos representar muitíssimo bem tanto como mulher,negra, baiana,nazarena, professora lançando um olhar diferente para comunidades até então desconhecidas. Que meu pai Odé lhe abençoe, proteja e ilumine sempre! Beijos minha linda!

  3. Parabéns Mille, orgulho de ser sua irmã. Mãe Valdice deve estar muito feliz e mãe Zezé essa sim com certeza ,cheia de orgulho. Quiseras que mãe estive aqui nesse plano pra encher o peito e dizer ” minha filha “

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