Manifesto Serigy 200

Dona Nadir, mestra do Samba de Pareia da Mussuca, em Laranjeiras / Foto: Fernando Correia

*por Roberto Oliveira e Henrique Maynart

Sergipe completa 200 anos de emancipação política em 2020, mas permanece absorto em sua adolescência história. Um estado à procura de identidade, embora se distancie dela à medida que a nega – quando não a confunde com a de nossas redondezas. SERIGY ou não SERIGY?  Eis a questão!

Memoriar é preciso. Neste sentido, o principal mal com que sofremos é a perda de memória. Memória não apenas como lembrança, como local de um passado que se quer intacto, mas enquanto permanência do acontecido; enquanto presença daquilo que está ausente ou ausência daquilo que não pode se fazer presente. O passado não está pacificado, mas pertence àquilo que ficou. Só é possível concebê-lo no tempo presente –tempo da reflexão e da ação. Só é possível agir sobre o presente, ainda que se tenha em vista mobilizar as correntes que disputam a memória coletiva. O passado corrói o porvir e se consolida na medida que se conserva, não é um espaço físico que se situa atrás, mas que está entre nós. E é assim que nosso futuro deve ser encarado: como o devir histórico da ação coletiva sobre o presente.

O esquecimento e a apatia, portanto, são os piores inimigos não apenas da constituição da memória, mas da construção de sujeitos coletivos, de futuro coletivo emprenhado de identidade e esperança.

Um exemplo sintomático e recente da nossa condição é a celebração do “Dia da Sergipanidade”, comemorado em 24 de outubro. Dia que atravessa a realidade da nossa população com peso semelhante àquele em que comemoramos 199 anos da nossa “emancipação” –datas aprisionadas pelas grades da história oficial. Como se fossem uma Ponte do Imperador: que não nos liga a nada nem nos leva a lugar algum, embora nos mantenha ilhados em relação à nossa identidade e à nossa memória –nossa miséria!

Uma sergipanidade como discurso de falso pertencimento, alheia à produção (e portanto disputa) da memória do cotidiano através da valorização e do reconhecimento das expressões contemporâneas e da mobilização do passado. Um remédio placebo para tratar o sintoma de uma coletividade desmemoriada, composta por instituições,  cidadãos e cidadãs alheias à própria história e desapegados da memória enquanto ferramenta social do inconsciente coletivo. Um documento lavrado em cartório, mas desvinculado do sentimento do mundo que ecoa das ruas. Uma sergipanidade que apela para o nosso “folclore” enquanto toneladas de petróleo entopem nossas veias e artérias, sufocando uma das nossas mais tradicionais formas de viver.

Resistir para existir

Que sergipanos e sergipanas somos nós? Com quem e com o que se identifica nossa existência? Buscamos nos diferenciar pelos traços de colonização espanhola para nos esquecermos que somos índios nativos e pretos aquilombados? Qual o marco fundacional da nossa “emancipação”? Se estamos cientes na nossa história oficial dos nossos togados e argutos heróis, onde estão nossos anti-heróis? Ou seguiremos tal qual o “papagaio” de Antônio Carlos du Aracaju, que segue sem asa e sem bico a dispor dos desmandos desta terra?

Ao nos aproximarmos dos 200 anos de história de Sergipe, precisamos aprender com o povo de Bacurau, empunhando hoje nossa memória como instrumento de resistência e de afirmação da nossa existência. E não nos preocupar com aqueles que não nos enxergam e por isso querem nos tirar do mapa: porque Itabaiana já estava nele muito antes de Sergipe: e nós estamos aqui desde muito antes de Itabaiana. Não carecemos de nenhum descobrimento ou reconhecimento externo, mas de autoconhecimento rumo ao florescer de nossa história.

Todo esse movimento se apresenta, hoje, potencial e concretamente, nas diferentes expressões das artes sergipanas, mas precisa se expandir da direção do nosso jornalismo, da nossa educação, da nossa historiografia e das políticas públicas de nossas instituições.

É preciso ser a poesia rebelde de Mário Jorge, a escrita negra de Beatriz Nascimento, o fole inquieto de Mestrinho e Cobra Verde, a viola popular de Lupércio Damasceno, o romance social de Amando Fontes, a loucura criativa de Arthur Bispo do Rosário, o samba de pareia de Dona Nadir da Mussuca e a medicina antirracista e vanguardista de Manoel Bomfim.

Enfim, à luz do bicentenário de Sergipe, é preciso reconhecer a emancipação que nos oprime, à medida que nos emancipamos através do exercício da memória que nos liberta. Memoriar para nutrir o tempo presente e disputar outro futuro possível.

Roberto Oliveira e Henrique Maynart integram o Coletivo Rever

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