“Na busca por Lucas, outros corpos negros são encontrados tombados” por Suzane Jardim

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Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

 

“Me ver pobre, preso ou morto já é cultural, histórias, registros e escritos não é conto, nem fábula, lenda ou mito” (Racionais Mc’s – Negro Drama)
*Suzane Jardim

 

Desde a madrugada de quarta feira (13), está desaparecido o adolescente Lucas Eduardo Martins, 14 anos, morador da Favela do Amor, na Vila Luzita, periferia da cidade paulista de Santo André. A família de Lucas relata que o adolescente desapareceu após uma abordagem da Polícia Militar na porta de casa, e que ainda foi possível ouvir a voz de Lucas respondendo aos policiais “eu moro aqui”, antes de ser levado. Durante as buscas que a família fez pela vizinhança, um usuário de drogas conhecido na região foi visto utilizando o moletom que Lucas estava vestindo naquela noite. Segundo essa pessoa, ela encontrou o moletom e um boné no fundo de uma escola pública do bairro.

Uma perícia realizada pela Polícia Civil, na viatura que possivelmente desapareceu com Lucas foram encontradas manchas que podem ser de sangue, dois PM’s suspeitos foram identificados e afastados das atividades de rua. A família de Lucas diz que recentemente um outro irmão dele foi agredido por Policiais Militares da região e que os PM’s chegaram a ir na casa da família.

Na sexta feira, enquanto moradores organizavam um protesto denominado “Cadê o Lucas”, parentes do adolescente se dirigiram ao IML, para fazer o reconhecimento após um corpo ter sido encontrado no largo do Parque Natural Municipal do Pedroso, a 15 quilômetros da casa onde Lucas mora com os familiares. E foi aí que ocorreu um erro de reconhecimento, o que fez circular por alguns instantes a notícia que Lucas estava morto. No entanto, houve uma divergência entre os próprios parentes de Lucas, quanto a identificação do corpo encontrado.

E foi justamente sobre esse ponto da identificação do corpo de Lucas, que a historiadora e militante antiracista Suzane Jardim abordou através de uma publicação no seu perfil pessoal no Facebook, como o racismo está naturalizado em nossa sociedade. Se por um lado a família de Lucas não reconheceu o corpo encontrado como sendo dele, e isso trouxe um certo conforto, pois deixa acesa a chama da esperança de encontra lo com vida, por outro fica evidente que se tornou normal que corpos negros sejam descartados em qualquer lugar, sem possibilidade de reconhecimento e dignidade. Inclusive, o corpo encontrado continua sem identificação e pelo que tudo indica ninguém apareceu para tentar reconhece lo além dos familiares de Lucas.

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Foto: ABCreporter

De fato, infelizmente, a sociedade brasileira normalizou corpos negros caídos no chão, como escreveu a professora da UFBA, Ana Flauzina, na sua dissertação de mestrado. Segundo os dados divulgados pelo IGBE, um jovem negro entre 15 e 29 anos, tem três vezes mais chances de ser assassinado do que uma pessoa não negra. Em se tratando de violência policial, no estado de São Paulo, entre os anos de 2014 e 2016, 16% dos mortos por policiais tinham menos de 17 anos, o dobro da proporção da taxa de homicídio geral que foi de 8%. No estado de São Paulo, os negros são 46% das vítimas de homicídio, enquanto que em ações policiais esse número sobe para 67%.

Reproduzimos abaixo o texto publicado por Suzane Jardim em sua rede social:

“Parte de eu ter deixado de postar constantemente nas redes sociais vem de que cansei de ser comentarista de tragédias. Tem até uma função em ser a pessoa que faz um textão expondo o genocídio caso a caso de um modo tocante e didático, que chegue em quem não acompanha a discussão ou não se comove, mas perdi a fé nesse método porque a própria comoção não tem se mostrado efetiva: vai um ato, talvez dois, umas matérias, vem a investigação, hashtag, uma semana, cabou. E aí a gente só aguarda a próxima vítima e recomeça. Eu não suporto mais isso.

Resolvi trocar o ser “a pessoa que sempre fala sobre” pra “pessoa que trabalha pra que essa merda pare” mesmo que isso não leve ninguém pra jornal, não dê seguidores e faça a gente entrar no que entrei: um mar de solidão onde só encontro gente a trabalho e passo meus dias em casa, só tendo meu filho e marido como companhia, conversa só com a terapeuta, raramente tendo quem me pergunte se estou bem e se pessoalmente estou com a mente saudável diante de tanta merda.

Mas isso aqui não é sobre mim. Só dei a introdução pra localizar e porque há quem só leia se o tema é banal. Caso aqui é sobre o Lucas, garoto de 14 anos desaparecido em Santo André.

Tenho acompanhado as comoções sobre a morte do garoto ao mesmo tempo que acompanho o trabalho que a Ingrid Limeira tem feito acompanhando o caso como representante da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio e ao que tudo indica, o corpo encontrado NÃO É DO LUCAS.

Com base nas últimas notícias dadas à Ingrid pela família, o corpo do IML, noticiado nas mídias, tem 1,95 e o Lucas é mais baixo que isso. Segundo o que ela disse, foi colhido material genético do mesmo para o exame de DNA e o resultado sairá em 10 dias. Ou seja, a família se mantêm na esperança de encontrar o garoto vivo. Imaginem a dor em ver as matérias e textões reforçando a morte para aqueles que ainda tem esperança?

Entretanto, a notícia do corpo no IML também nos diz mais: um corpo negro foi encontrado morto e ainda segue sem identificação. Aparentemente é o segundo corpo negro encontrado durante as buscas por Lucas. Logo, o fato de não ser Lucas a vítima, não nos conforta totalmente, mas mostra que de fato há um sistema onde corpos de jovens negros estão sendo abandonados sem nome por aí.

Quantos outros corpos serão encontrados enquanto a investigação continuar? E se não houvesse investigação? Quantos outras mortes seguiriam invisíveis?

Dito isso, reforço o pedido da Ingrid para que não mais divulguem que Lucas foi encontrado morto. O peso disso para quem o espera com vida é inimaginável pra mim e, como mãe, só de pensar sobre tenho certeza que não desejo algo semelhante a ninguém.”

 

Suzane Jardim é historiadora e abolicionista penal.

Edição: Henrique Oliveira/colaborador da Revista Rever – Salvador

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